A Heresia do Egocentrismo



"Não negligencieis a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]"

Hebreus 13.16

O egocentrismo não tem lugar na igreja. Nem devíamos dizer isso, mas, desde o alvorecer da era apostólica até hoje, o amor próprio em todas as suas formas tem prejudicado incessantemente a comunhão dos santos. Um exemplo clássico e antigo de egocentrismo fora de controle é visto no caso de Diótrefes. Ele é mencionado em 3 João 9-10, onde o apóstolo diz: "Escrevi alguma coisa à igreja; mas Diótrefes, que gosta de exercer a primazia entre eles, não nos dá acolhida. Por isso, se eu for aí, far-lhe-ei lembradas as obras que ele pratica, proferindo contra nós palavras maliciosas. E, não satisfeito com estas coisas, nem ele mesmo acolhe os irmãos, como impede os que querem recebê-los e os expulsa da igreja".
Diótrefes anelava ser o preeminente em sua congregação (talvez até mais do que isso). Portanto, ele via qualquer outra pessoa que tinha autoridade de ensino – incluindo o apóstolo amado – como uma ameaça ao seu poder. João havia escrito uma carta de instrução e encorajamento à igreja, mas, por causa do desejo de Diótrefes por glória pessoal, ele rejeitou o que o apóstolo tinha a dizer. Evidentemente, ele reteve da igreja a carta de João. Parece que ele manteve em segredo a própria existência da carta. Talvez ele a destruiu. Por isso, João escreveu sua terceira epístola inspirada para, em parte, falar a Gaio sobre a existência da carta anterior.
Na verdade, o egoísmo de Diótrefes o tornou culpado do mais pernicioso tipo de heresia: ele rejeitou ativamente e se opôs à doutrina apostólica. Por isso, João condenou Diótrefes em quatro atitudes: ele rejeitou o ensino apostólico; fez acusações injustas contra um apóstolo; foi inóspito para com os irmãos e excluiu aqueles que não concordavam com seu desafio a autoridade de João. Em todo sentido imaginável, Diótrefes era culpado da mais obscura heresia, e todos os seus erros eram frutos de egocentrismo.
Em nosso estado caído, estado de carnalidade, somos todos assediados por uma tendência para o egocentrismo. Isto não é uma ofensa insignificante, nem um pequeno defeito de caráter, nem uma ameaça irrelevante à saúde de nossa fé. Diótrefes ilustra a verdade de que o amor próprio é a mãe de todas as heresias. Todo falso ensino e toda rebelião contra a autoridade de Deus estão, em última análise, arraigados em um desejo carnal de ter a preeminência – de fato, um desejo de reivindicar para si mesmo aquela glória que pertence legitimamente a Cristo. Toda igreja herética que já vimos tem procurado suplantar a verdade e a autoridade de Deus com seu próprio ego pretensioso.
De fato, o egocentrismo é herético porque é a própria antítese de tudo que Jesus ensinou ou exemplificou. E produz sementes que dão origem a todas as outras heresias imagináveis.
Portanto, não há lugar para egocentrismo na igreja. Tudo no evangelho, tudo que igreja tem de ser e tudo que aprendemos do exemplo de Cristo golpeia a raiz do orgulho e do egocentrismo humano.

Koinonia


As descrições bíblicas de comunhão na igreja do Novo Testamento usam a palavra grega koinonia. O espírito gracioso que essa palavra descreve é o extremo oposto do egocentrismo. Traduzida diferentemente por "comunhão", "compartilhamento", "cooperação" e "contribuição", esta palavra é derivada dekoinos, a palavra grega que significa "comum". Ela denota as ideias de compartilhamento, comunidade, participação conjunta, sacrifício em favor de outros e dar de si para o bem comum.
Koinonia era uma das quatro atividades essenciais que mantinha os primeiros cristãos juntos: "E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão [koinonia], no partir do pão e nas orações" (At 2.42). O âmago da "comunhão" na igreja do Novo Testamento era culto e sacrifício uns pelos outros, e não festividade ou funções sociais. A palavra em si mesma deixava isso claro nas culturas de fala grega. Ela foi usada em Romanos 15.26 para falar de "uma coleta em benefício dos pobres" (ver também 2 Co 9.3). Em 2 Coríntios 8.4, Paulo elogiou as igrejas da Macedônia por "participarem [koinonia] da assistência aos santos". Hebreus 13.16 diz: "Não negligencieis, igualmente, a prática do bem e a mútua cooperação [koinonia]". Claramente, o egocentrismo é hostil à noção bíblica de comunhão cristã.

Uns aos outros

Esse fato é ressaltado também pelos muitos "uns aos outros" que lemos no Novo Testamento. Somos ordenados: a amar "uns aos outros" (Jo 13.34-35; 15.12, 17); a não julgar "uns aos outros" e ter o propósito de não por tropeço ou escândalo ao irmão (Rm 14.13); a seguir "as coisas da paz e também as da edificação de uns para com os outros" (Rm 14.19); a ter "o mesmo sentir de uns para com os outros" e acolher "uns aos outros, como também Cristo nos acolheu para a glória de Deus" (Rm 15.5, 7). Somos instruídos a levar "as cargas uns dos outros" (Gl 6.2); a sermos benignos uns para com os outros, "perdoando... uns aos outros" (Ef 4.32); e a sujeitar-nos "uns aos outros no temor de Cristo" (Ef 5.21). Em resumo, "Nada façais por partidarismo ou vanglória, mas por humildade, considerando cada um os outros superiores a si mesmo" (Fp 2.3).
No Novo Testamento, há muitos mandamentos semelhantes que governam nossos relacionamentos mútuos na igreja. Todos eles exigem altruísmo, sacrifício e serviço aos outros. Combinados, eles excluem definitivamente toda expressão de egocentrismo na comunhão de crentes.

Cristo como cabeça de seu corpo, a igreja

No entanto, isso não é tudo. O apóstolo Paulo comparou a igreja com um corpo que tem muitas partes, mas uma só cabeça: Cristo. Logo depois de afirmar, enfaticamente, a deidade, a eternidade e a proeminência absoluta de Cristo, Paulo escreveu: "Ele é a cabeça do corpo, da igreja" (Cl 1.18). Deus "pôs todas as coisas debaixo dos pés, e para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo" (Cl 1.22-23). Cristãos individuais são como partes do corpo, existem não para si mesmos, mas para o bem de todo o corpo: "Todo o corpo, bem ajustado e consolidado pelo auxílio de toda junta, segundo a justa cooperação de cada parte, efetua o seu próprio aumento para a edificação de si mesmo em amor" (Ef 4.16).
Além disso, cada parte é dependente de todas as outras, e todas estão sujeitas à Cabeça. Somente a Cabeça é preeminente, e, além disso, "se um membro sofre, todos sofrem com ele; e, se um deles é honrado, com ele todos se regozijam" (1 Co 12.26).
Até aquelas partes do corpo aparentemente insignificantes são importantes (vv. 12-20). "Deus dispôs os membros, colocando cada um deles no corpo, como lhe aprouve. Se todos, porém, fossem um só membro, onde estaria o corpo?" (vv. 18-19).
Qualquer evidência de egoísmo é uma traição de não somente o resto do corpo, mas também da Cabeça. Essa figura torna o altruísmo humilde em virtude elevada na igreja – e exclui completamente qualquer tipo de egocentrismo.

Escravos de Cristo

A linguagem de escravo do Novo Testamento enfatiza, igualmente, esta verdade. Os cristãos não são apenas membros de um corpo, sujeitos uns aos outros e chamados à comunhão de sacrifício. Somos também escravos de Cristo, comprados com seu sangue, propriedade dele e, por isso, sujeitos ao seu senhorio.
Escrevi um livro inteiro sobre este assunto. Há uma tendência, eu receio, de tentarmos abrandar a terminologia que a Escritura usa porque – sejamos honestos – a figura de escravo é ofensiva. Ela não era menos inquietante na época do Novo Testamento. Ninguém queria ser escravo, e a instituição da escravidão romana era notoriamente abusiva.
No entanto, em todo o Novo Testamento, o relacionamento do crente com Cristo é retratado como uma relação de senhor e escravo. Isso envolve total submissão ao senhorio dele, é claro. Também exclui toda sugestão de orgulho, egoísmo, independência ou egocentrismo. Está é simplesmente mais uma razão por que nenhum tipo de egocentrismo tem lugar na vida da igreja.
O próprio senhor Jesus ensinou claramente este princípio. Seu convite a possíveis discípulos foi uma chamada à total autorrenúncia: "Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz e siga-me" (Lc 9.23).
Os doze não foram rápidos para aprender essa lição, e a interação deles uns com os outros foi apimentada com disputas a respeito de quem era o maior, quem poderia ocupar os principais assentos no reino e expressões semelhantes de disputas egocêntricas. Por isso, na noite de sua traição, Jesus tomou uma toalha e uma bacia e lavou os pés dos discípulos. Sua admoestação para eles, na ocasião, é um poderoso argumento contra qualquer sussurro de egocentrismo no coração de qualquer discípulo: "Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também" (Jo 13.14-15).
Foi um argumento do maior para o menor. Se o eterno Senhor da glória se mostrou disposto a tomar uma toalha e lavar os pés sujos de seus discípulos, então, aqueles que se chamam discípulos de Cristo não devem, de maneira alguma, buscar preeminência para si mesmos. Cristo é nosso modelo, e não Diótrefes.
Não posso terminar sem ressaltar que este princípio tem uma aplicação específica para aqueles que estão em posições de liderança na igreja. É um lembrete especialmente vital nesta era de líderes religiosos que são superestrelas e pastores jovens que agem como estrelas de rock. Se Deus chamou você para ser um presbítero ou mestre na igreja, ele o chamou não para sua própria celebridade ou engrandecimento. Deus o chamou a fazer isso para a glória dele mesmo. Nossa comissão é pregar não "a nós mesmos, mas a Cristo Jesus como Senhor e a nós mesmos como vossos servos [escravos], por amor de Jesus" (2 Co 4.5).




AutorJohn MacArhtur, autor de mais de 150 livros e conferencista internacional, é pastor da Grace Comunity Church, em Sum Valley, Califórnia, desde 1969; é presidente do Master's College and Seminary e do ministério "Grace to You"; John e sua esposa Patrícia têm quatro filhos e quatorze netos.

Fonte:  Editora FIEL 2012.

A SUFICIÊNCIA DE DEUS




Dr. J.I.Packer

A carta de Paulo aos romanos é o ponto alto das Escrituras, não importa de qual ângulo você a observe. Lutero a chamou "o mais claro de todos os Evangelhos". "Quem a entender", escreveu Calvino, "terá seguramente uma porta aberta para a compreensão de toda a Escritura". Tyndale, em seu prefácio a Romanos, ligou os dois pensamentos, chamando Romanos "a parte principal e mais excelente do Novo Testamento, e o mais puro evangelion, isto é, as boas-novas chamadas Evangelho, e também luz e caminho para perscrutar toda a Escritura". Todas as estradas da Bíblia levam a Romanos, e todas as idéias apresentadas nas Escrituras são vistas com mais clareza nessa carta. Quando sua mensagem adentra o coração da pessoa não é possível avaliar as conseqüências.

SE DEUS É POR NÓS

"Se Deus é por nós, quem será contra nós?". A idéia é que nenhuma oposição poderá nos esmagar. Para expressar isso Paulo coloca diante de nós a suficiência de Deus como nosso soberano protetor e a determinação de sua aliança de compromisso conosco. "Se Deus é por nós..." Quem é Deus? Paulo fala do Deus da Bíblia e do Evangelho, o Senhor Yahweh; "SENHOR, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6), aquele a quem "o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido" (Jo 1:18). Este é o Deus que falou e anunciou sua soberania: "Eu sou Deus, e não há nenhum outro; eu sou Deus, e não há nenhum como eu. Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada" (Is 46:9,10). Este é o Deus que mostrou sua soberania tirando Abraão de Ur, Israel do cativeiro do Egito e mais tarde da Babilônia, e Jesus do túmulo; e que mostra a mesma soberania todas as vezes que levanta um pecador da morte espiritual para a vida. Este é o Deus de Romanos, o Deus cuja ira se manifesta "contra toda impiedade e injustiça dos homens" (1:18), mas que, no entanto, "demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (5:8). Este é o Deus que chama, justifica e glorifica aqueles que desde a eternidade "predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho" (8:29). Este é o Deus do primeiro dos 39 artigos de religião (anglicanos): O "único Deus, vivo e verdadeiro, eterno [...] de infinito poder, sabedoria e bondade; o Criador e Conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis". Este é (devo acrescentar) o Deus cujos caminhos temos estudado neste livro. "Se Deus" — este Deus — é por nós — o que significa isto? As palavras por nós afirmam a aliança de compromisso. O objetivo da graça, como já vimos, é criar uma relação de amor entre Deus e os que crêem, o tipo de relacionamento para o qual fomos criados, e o laço de comunhão pelo qual Deus se une a nós é sua aliança. Ele impõe isso unilate-ralmente pela promessa e pela ordem. Vemolo fazendo isso quando fala a Abraão em Gênesis 17: "Eu sou o Deus todopoderoso [...] estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência [...] para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes [...] guarde a minha aliança" (v. 1,7,9). Gálatas 3 e 4 mostram que todos os que colocam sua fé em Cristo, quer gentios quer judeus, são incorporados por meio de Cristo à descendência de Abraão, que faz parte da aliança. Uma vez estabelecida, o concerto permanece, pois Deus cuida para que assim seja. Como Pai, Esposo e Rei (estes são os modelos de relacionamento humano em que seu relacionamento de aliança é apresentado), Deus é fiel a sua promessa e a seu propósito. A promessa em si mesma — de ser "seu Deus""ser o teu Deus" — é ampla, pois, quando revelada, prova conter em si todas as "grandiosas e preciosas promessas" (2Pe 1:4) com as quais Deus se comprometeu a suprir nossas necessidades. Este relacionamento de aliança é a base de toda a religião bíblica: quando os adoradores dizem "meu Deus" e Deus diz "meu povo" sendo utilizada a linguagem da aliança, como também na expressão "Deus é por nós. O que se proclama aqui é a garantia divina de nos sustentar e proteger quando as pessoas e as circunstâncias nos ameaçam; cuidar de nós durante todo o tempo de nossa peregrinação na terra e levar-nos afinal para o regozijo total de si mesmo, não importa quantos obstáculos pareçam, no presente, estar no caminho que nos leva até lá. Esta simples afirmação "Deus é por nós" é na realidade uma das mais ricas e valiosas da Bíblia. O que significa para mim o fato de poder dizer: "Deus está a meu favor"? A resposta é encontrada no salmo 56, em que a declaração "Deus está a meu favor" (v. 9) é a mola propulsora. O salmista foi colocado contra a parede: "Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente" (v. 2). No entanto, o conhecimento de que Deus está a seu lado traz uma nota de triunfo a sua oração. Em primeiro lugar, assegura-lhe que Deus não o esqueceu ou fez pouco caso de suas necessidades: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre (para preservar!); acaso não estão anotadas em teu livro (permanentemente registradas)?" (v. 8). Segundo, dá-lhe a confiança de que "Os meus inimigos retrocederão, quando eu clamar por socorro" (v. 9). Terceiro, oferece a base para a confiança "que vence o pânico". "Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti [...] em Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o simples mortal?" (v. 3,4). O que quer que a "carne" ou o "homem", como está no versículo 11, possa fazer ao salmista exteriormente, por assim dizer, no mais profundo sentido não poderá tocá-lo, pois sua vida real é a vida interior de comunhão com o Deus amoroso, e o Deus que o ama, não importa o que aconteça, lhe preservará a vida.O salmo 56 também ajuda a responder à pergunta: Quem são as pessoas ("nós") favorecidas por Deus ("por")? O salmista apresenta três qualidades que em conjunto identificam o verdadeiro crente. Primeiro ele louva, e o que ele louva é a palavra de Deus (v. 4,10) — isto é, ele observa a revelação de Deus e o adora nela e de acordo com ela, em lugar de abandonar-se a suas descontroladas fantasias teológicas. Segundo, ele ora, e o desejo que impulsiona sua oração é a comunhão com Deus como objetivo e finalidade da vida "para que eu ande diante de Deus" (v. 13). Terceiro, ele paga — paga seus votos de fidelidade e gratidão (v. 12). A pessoa que louva, ora, agradece e é fiel tem em si as marcas do filho de Deus. Qual foi, então, o propósito de Paulo ao fazer essa pergunta? Ele se opunha ao medo — o medo que o cristão tímido tem das forças agregadas contra si, as forças, por assim dizer, dele, dela ou deles. Paulo sabe que há sempre algumas pessoas, ou grupos delas, cuja ridicularização, desagrado ou hostilidade o cristão se sente incapaz de enfrentar. Paulo sabe que cedo ou tarde isso se torna um problema para todos os cristãos, mesmo para os que, antes da conversão, não se importavam com o que os outros pensassem ou dissessem a seu respeito. Ele sabe quão inibidor ou desolador esse medo pode ser. Mas ele também sabe a resposta para isso. Pense, diz Paulo. Deus é por você, e você sabe o que isso significa. Agora veja quem está contra você, faça uma comparação entre os dois lados tradução "quem pode estar contra nós" é errada, e não atinge a idéia de Paulo; o que ele pede é a revisão realista da oposição humana e demoníaca, não a pretensão romântica de sua não-existência. A oposição é uma realidade: o cristão que não tem consciência dessa oposição precisa cuidar-se, pois está em perigo. Essa irrealidade não é exigência para o discipulado cristão, mas, ao contrário, evidência de fracasso). Você "os" teme? Paulo pergunta. Não precisa mais temer, assim como Moisés já não precisava ter medo do faraó depois de Deus lhe haver dito: "Eu estarei com você" (Êx 3:12). Paulo adverte seus leitores para que façam o tipo de cálculo feito por Ezequias: "Não tenham medo nem desanimem por causa do rei da Assíria e do seu enorme exército, pois conosco está um poder maior do que o que está com ele [.-..] conosco está o SENHOR, O nosso Deus, para nos ajudar e para travar as nossas guerras" (2Cr 32:7,8). Augustus M. Toplady, que é o poeta da segurança cristã, como Isaac Watts é o poeta da soberania de Deus e Charles Wesley o da nova criação, expressa do seguinte modo a idéia da pergunta de Paulo:

Eu tenho um protetor soberano
Invisível, porém sempre ao meu alcance
Imutavelmente fiel para salvar
Poderoso para dirigir e ordenar.
Ele sorri e meu conforto aumenta
Sua graça como o orvalho cairá
e muralhas de salvação rodearão
a alma que ele se alegra em defender.


Compreenda isto, diz Paulo; firme-se nisso, deixe que essa certeza tenha impacto sobre você em relação ao que enfrenta nesse exato momento; ao conhecer a Deus como seu soberano protetor, irrevogavelmente comprometido com você pela aliança da graça, você encontrará tanto a libertação do medo quanto novas forças para a luta.

Fonte: O Conhecimento de Deus – pp.248-251
Editora Mundo Cristão

A Confissão de Fé de Westminster: Da Criação




Pr. Daniel Carneiro

I. A Criação do Mundo

A Confissão diz: “No princípio aprouve a Deus O Pai, O Filho e O Espírito Santo... criar ou fazer do nada... o mundo e tudo o que nele há visíveis e invisíveis”.

Existem muitas teorias científicas e filosóficas sobre a origem do mundo. Uma teoria bem conhecida é a do ‘Big Bang’ – grande explosão. Segundo esta teoria, há bilhões de anos explodiu um átomo do tamanho de uma bolinha de ping-pong e, desta explosão surgiu o universo com tudo o que há nele. Isto é ensinado nas escolas e universidades. O testemunho da Escritura é que há um Deus poderoso, bondoso e sábio que trouxe à existência todas as coisas. Deus criou ‘do nada’, isto é, sem usar nenhum material pré-existente, todas as coisas que existem (Gn 1.1; Jr 10.12; Sl 8.3; At 17.24)

A obra da criação envolve as coisas visíveis e invisíveis:

‘Visíveis’: O mundo físico, o mar, o céu, os planetas, os animais etc;
‘Invisíveis’: Os anjos, os espíritos-almas (Cl 1.16).
É bom destacarmos que a criação não é obra de apenas uma Pessoa da divindade, mas é obra das três Pessoas: O Pai, O Filho e O Espírito Santo (Gn 1.1,2; Jô. 1.2,3). Com base em Êxodo 20.11, a Confissão de Fé afirma que a criação toda foi feita “no espaço de seis dias”. Há muita divergência sobre o que significa “seis dias”. Alguns entendem esta expressão como sendo simbólica, figurada, para se referir a uma grande era geológica ou um grande período de tempo. Outros acreditam que “seis dias” é uma expressão literal significando “dias de 24 horas”. O nosso entendimento é que a expressão “seis dias” deve ser entendida literalmente e, isto por algumas razões:

“Dia” em hebraico é “Yom” e o significado primário desta palavra denota um dia natural como nós o conhecemos;
A Bíblia diz que “houve tarde e manhã” em cada dia mencionado. Isto seria impossível se tratasse de longos períodos;
Êx 20.11 ordena a Israel que trabalhe seis dias e descanse no sétimo porque Deus fez o mundo em seis dias e descansou no sétimo. Uma boa interpretação parece exigir que a palavra “dia” seja tomada no mesmo sentido em ambos os casos.
A Confissão termina este ponto afirmando o propósito pelo qual Deus fez todas as coisas: “Para a manifestação da gloria do seu eterno poder, sabedoria e bondade”.

II. A Criação do Homem e da Mulher

A Confissão diz: “Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho e fêmea”.

Teorias científicas dizem que o homem é produto da evolução de outros seres, especificamente do macaco. Dizem até que o ‘sexo’ nasceu de células saídas da água. Desta forma, as células feminina e masculina, foram se unindo a outras células, dando assim origem ao “macho” e a “fêmea”. O testemunho da Escritura é que Deus criou os seres já com seus sexos definidos e, como última obra da criação. Ele fez o homem e a mulher já como “macho” e “fêmea”. De acordo como a Escritura o homem sempre foi como é. Deus fez todas as coisas de uma forma (Gn 1.3,6,11,14,20,24), mas ao fazer o homem, Deus usou outra forma (Gn 1.26,27; 2.7).

O homem foi feito ”segundo a sua (Deus) imagem”. O que isto significa? Significa que o homem e a mulher foram feitos com almas racionais e imortais, com retidão e perfeita santidade. Ao criar o homem e a mulher, Deus colocou sua lei “escrita em seus corações, e o poder de cumpri-la” e “receberam o preceito de não comerem da árvore da ciência do bem e do mal” (Gn 3.6; Rm 2.14,15)

Durante o tempo em que o homem e a mulher guardaram este preceito, foram “felizes em comunhão com Deus”.


Sobre o autor: O Pr. Daniel Carneiro da Silva é ministro da IPB e está a procura de campo. É professor de Teologia Sistemática, Teologia Contemporânea, Religião e Sociedade Pós-Moderna e Símbolos de Fé no Seminário Presbiteriano do Norte (SPN), em Recife.

NÃO DEIXE DE CORRIGIR SEUS FILHOS



Por Bruce A. Ray

O amor que, como pais, temos pelos nossos filhos exige que o corrijamos. É natural sermos carinhosos e termos afeto com os do nosso próprio sangue, mas esse carinho e essa afeição não podem ser empregados como desculpa para fugirmos à nossa responsabilidade. Se realmente entendemos que nossos filhos são depravados e cheios de pecado, caminhando para o inferno, e se apreciamos plenamente a responsabilidade que Deus nos impôs como pais crentes, então um amor genuíno tem que constranger-nos a disciplinar os nossos filhos.

Nosso Deus ordena: “Castiga a teu filho enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo” (Pv 19.18). Discipline seu filho enquanto há esperança. Enquanto você exerce controle sobre ele, enquanto ele estiver debaixo do seu teto, e mesmo depois, você deverá corrigi-lo. Eli foi considerado responsável, apesar de seus filhos já serem adultos e talvez já terem suas próprias mulheres e filhos. Eli tinha a responsabilidade de corrigir seus filhos, e enquanto os nossos filhos estiverem vivos, haverá esperança de que se arrependam, creiam no Senhor Jesus Cristo, e sejam salvos. Enquanto houver essa esperança, e enquanto eles forem vivos, é nossa responsabilidade, como pais crentes, oferecermos direção, disciplina e correção. Dói ouvir nosso filho chorar e saber que somos a causa de sua dor, mas dói mais ainda saber que se nós não os disciplinarmos agora, se eles não chorarem agora, poderão chorar eterna e amargamente, na dor da angústia do inferno. É melhor que chorem um pouco agora, do que sofram o choro e o ranger de dentes da perdição eterna. Melhor discipliná-los agora, enquanto há esperança, do que olhar para trás depois do juízo, e dizer: “É o que eu deveria ter feito; quem sabe, eles ter-se-iam livrado do tormento eterno”.

A Bíblia diz, em Provérbios 13:24 “O que retém a vara aborrece a seu filho”. Talvez você proteste: “Não é verdade. Eu amo a meu filho. E por isso não tenha coragem de bater nele”. Na verdade, você o despreza, porquanto pensa levianamente sobre o estado de sua alma eterna. Não importa o quanto você tente persuadir a si mesmo, Deus diz que o pai que ama a seu filho o corrigirá cedo. Disciplina não é ódio; disciplina é amor.

Fonte: Editora Fiel- www.editorafiel.com.br

O ensino do Velho Testamento sobre a justificação



Nestas preleções, "justificação" significa que a pessoa é vista e considerada por Deus como livre de qualquer transgressão e como possuidora de uma santidade perfeita. Tal pessoa desfruta do favor e da bênção de Deus. A justificação significa mais do que um mero perdão dos pecados; significa que a pessoa justificada é considerada como se tivesse guardado perfeitamente todas as leis de Deus.As leis de Deus são as únicas regras pelas quais podemos ser justificados - ou condenados. Com certeza, portanto, devemos confessar que a justificação, por nossos próprios esforços, é impossível, porque nós todos temos transgredido essas leis. Então, como poderemos ser justificados? Esse é o assunto do nosso livro. O evangelho de Jesus Cristo é poderoso para resolver o problema.A Bíblia descreve dois métodos de justificação.
i. Houve um tempo quando o homem e a mulher viveram livres de qualquer transgressão. Refiro-me aos nossos primeiros pais, Adão e Eva. Eles foram criados santos, felizes, e livres de qualquer pecado. Deus lhes revelou que, se guardassem Seus mandamentos, eles permaneceriam naquele estado de santidade e felicidade, justificados por sua própria obediência. Deus lhes disse que a desobediência produziria tanto a perda do favor divino, como a sua morte.O primeiro método de justificação foi pela obediência ao mandamento de Deus. Mas este método foi útil somente para aquelas pessoas que já eram santas e sem pecado. No momento em que Adão e Eva desobedeceram a Deus, este método de justificação tornou-se inadequado para ajudá-los. A lei de Deus, infringida por sua transgressão, tinha de condená-los como transgressores: ela não podia justificá-los; isto é, ela não podia declará-los santos e livres de transgressão.
ii. Desde o tempo em que Adão e Eva caíram no pecado por seu ato de desobediência, tem sido necessário que a justificação fosse possível para aqueles que são pecadores. O segundo método de justificação foi revelado por Deus quando Adão e Eva foram chamados para comparecer diante dEle (Gênesis 3:14-16). As palavras que Deus lhes falou significam que Ele mesmo cuidaria de sua justificação; que Ele enviaria à terra um Salvador, nascido de mulher, que libertaria os pecadores das mãos de satanás.Esta primeira comunicação dos misericordiosos propósitos de Deus foi feita em termos muito gerais. Contudo, ela conteve as mesmas verdades tão plenamente expressadas no evangelho do Novo Testamento.
O método da justificação foi pela graça de Deus. Um libertador divino viria
- Jesus Cristo - que sofreria pelo pecado no lugar de pecadores. Por Seu gracioso dom da salvação, Deus mesmo assumiu, soberanamente, a justificação de pecadores debilitados.Por causa da promessa de Deus para enviar um Salvador, Adão e Eva e todos os demais fiéis do Velho Testamento experimentaram uma mistura de sentimentos: por um lado, houve um terror de Deus por causa de sua desobediência a Ele; e, por outro lado, houve uma esperança na promessa de Deus que falava de sua libertação. Estes sentimentos se expressaram pelo rito do sacrifício de animais oferecidos a Deus. 1Um animal foi imolado. O sangue de sua vida foi derramado. Isso expressou a verdade a respeito da ira de Deus no juízo. O animal era inocente, todavia, foi imolado como substituto do pecador. Isso expressou a verdade da providência de um libertador divino.Evidentemente, os sacrifícios do Velho Testamento descreveram, de forma simbólica, a obra de Jesus Cristo - "o Cordeiro de Deus" que tiraria Parece extremamente provável que o sacrifício de animais foi instituído por Deus e não por uma invenção humana. Abel "ofereceu pela fé" (Hebreus 11:4), isto é, acreditando. Portanto, deve ter recebido alguma autorização divina para justificar a sua ação. Fé entende a presença de alguma realidade que deve ser aceita: neste caso, a instrução divina para oferecer sacrifícios.o pecado do mundo (João 1:29). Pela oferta de tal sacrifício e acreditando em seu sentido, Abel "obteve testemunho de ser justo" (Hebreus 11:4). Inegavelmente, naquela época - como agora -todos os que creram no plano de Deus para a salvação, a saber, através da morte de um substituto inocente, foram - e são -justificados. Os incrédulos que rejeitam o plano de Deus para a salvação, obrigatoriamente permanecerão sob o juízo de Deus por causa de seu pecado.
No dilúvio que destruiu a todos, exceto Noé e a sua família (Gênesis 7:23), Deus demonstrou, tanto a Sua ira sobre os pecadores que permaneceram em sua incredulidade, como a justificação daqueles fiéis que obedeceram e entraram na arca.Depois do dilúvio, a revelação divina para justificar através da misericordiosa providência do Salvador tornou-se cada vez mais clara. O caso mais memorável dessa justificação pela graça nos dias patriarcais foi aquele de Abraão. Sua experiência é freqüentemente citada no Novo Testamento como exemplo deste segundo método de justificação (João 8:56; Romanos 4:3; Gálatas 3:6; Tiago 2:23).A seguinte grande era na história da justificação no Velho Testamento foi introduzida pela promulgação da lei de Moisés no Sinai. O propósito dessa lei foi duplo - para governar a vida da nação israelita e também para educá-la a fim de ser pronto para receber o prometido Salvador, por intermédio de quem, segundo a compreensão de Abraão, seriam "benditas todas as nações da terra" (Gênesis 22:18).
Em relação ao primeiro destes propósitos - a lei como guia para a vida nacional - a segurança física da nação dependia da sua obediência a esta lei. Neste sentido nacional, a prosperidade dela dependeria de suas ações. A lei poderia ser vista como uma "aliança nacional de obras".Quanto à eterna salvação dos fiéis, o segundo propósito da lei foi dar-lhes a convicção do pecado, e assim, educar e preparar os israelitas para a vinda do Salvador. O apóstolo Paulo usou a lei dessa maneira para demonstrar a impossibilidade de alguém ser justificado por obras da lei, porque ela não podia ser perfeitamente guardada por criaturas pecadoras.A lei, portanto, não foi contrária ao método de justificação no qual Deus graciosamente providenciou um Salvador. Ao invés disso, a lei foi promulgada para contribuir ao conhecimento daquele método. Todas as cerimônias legais instituídas para serem observadas foram expressivos símbolos dos valores espirituais. Todo o ritual da Igreja vetero-testamentária ilustrava aspectos diferentes da obra de Cristo, o Salvador. Portanto, o israelita piedoso, contemplando prospectivamente, foi justificado pela graça por intermédio de fé em Jesus Cristo, no mesmo sentido em que o cristão fiel dos tempos neo-testamentários contempla retrospectivamente.
Durante o período da lei, Deus enviou aos israelitas uma sucessão de profetas para explicar ambos os sentidos de Sua lei: nacional e espiritual. No tempo de Samuel e Davi, houve um grande aumento no conhecimento revelado a respeito da vinda do Messias. Posteriormente, Isaías e outros profetas O descreveram com minuciosos detalhes. Essas verdades foram a base sobre a qual os verdadeiros fiéis na congregação israelita depositaram toda a sua fé.Nas primeiras páginas de Mateus e Lucas no Novo Testamento, encontra-se a menção de várias pessoas piedosas que aguardavam a justificação através do cumprimento da promessa primordial para enviar um Salvador. Zacarias, Isabel, Simeão, Ana, e outros, "esperavam a redenção de Jerusalém" (Lucas, capítulos 1 e 2).O Velho Testamento, considerado como o registro de conhecimento da vida espiritual, não tem nenhum outro paralelo entre todos os escritores filosóficos da antigüidade. O Velho Testamento está repleto daquela verdade evangélica, que Deus oferece a justificação gratuitamente para todos os pecadores que crêem nEle. O evangelho foi conhecido e crido nos tempos do Velho Testamento. É somente de acordo com essa verdade que os apóstolos podiam basear o seu ensino do método de justificação sobre as experiências de Abraão e Davi (Romanos, capítulo 4) e outros fiéis do Velho Testamento (Hebreus, capítulo 11).

Fonte:Publicações Evangélicas Selecionadas

Auto:Uma versão abreviada e reescrita para os leitores de hoje da obra clássica Justificação por James Buchanan, D.D., LL.D.,

Publicada pela primeira vez em 1867 - A obra completa em inglês pode ser adquirida da Banner of Truth Trust.

A Conversão de um Pecador



por Nathaniel Vincen

Não há doutrina sobre a qual é mais importante sermos completamente ortodoxos do que a doutrina da conversão. Se o arrependimento estiver ausente, então teremos antinomianismo ou fideismo. Se a fé estiver ausente, teremos apenas salvação pelas obras. Se o entendimento da fé ou do arrependimento estiver defeituoso, haverá pouca probabilidade que a conversão seja genuína.

"...desenvolvei a vossa vocação com temor e tremor... " (Filipenses2:12) Se existe alguma coisa excelente, esta é a salvação. Se existe algo que seja realmente necessário, é o desenvolvimento da salvação. Se há alguma ferramenta com a qual se trabalhar, esta é o santo temor: "desenvolvei a vossa vocação com temor. "
Essas palavras são uma exortação grave e séria, necessária não somente para aqueles cristãos que viveram no tempo dos apóstolos, mas altamente apropriada para esta época em que vivemos. Primeiramente observe no texto o modo da advertência. "Meus amados". O apóstolo tentou por todos os meios tornar-se agradável a fim de penetrar nos corações dos Filipenses. Ele prescreveu uma pílula de evangelho e mergulhou-a no açúcar para que pudesse ser melhor engolida. Ele esforçou-se para levar os Filipenses à compreensão do seu axioma, isto é, que tudo quanto falava com eles sobre suas almas o fazia em puro amor. Às vezes misturou suas palavras com lágrimas e falou chorando. (Fil. 3:8). Às vezes ele as mergulhava em mel. Paulo sabia como reprovar. Era parte de seu trabalho e ferramenta de sua cirurgia espiritual, "...repreende-os duramente ", (Tito 1:13), ou como dizem os gregos, "severamente". Entretanto, quando terminava de lancetar, ele sabia como colocar vinho e óleo sobre a ferida. Ele oferecia aconchego como uma ama, edesejava repartir com o povo não somente seus sermões, como também sua alma. (I Tess. 2:7-8). Aqui o apóstolo Paulo dá um exemplo a todos os ministros de Cristo. Seus corações devem arder não com o fogo da paixão, e sim com o do amor para com seu povo. Sendo eles os embaixadores de Cristo, devem vir com palavras de paz em seus lábios." Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse caridade, seria como o metal que soa ou como o sino que tine. "(ICor. 13:1).E melhor amar como um pastor do que falar como um anjo. O amor é aquela flor que deve crescer no coração e espalhar seu perfume nos lábios de cada ministro. Aqueles que vêm em espírito de moderação para seu povo provavelmente farão maior bem. Corações endurecidos serão rápida mente amolecidos pelo amor. O amor abrasado penetrará onde a cunha não pode penetrar. O raio quebra, todavia o sol funde. Quando o amor manifesta sua doce influência, faz com que o coração do pecador se desfaça em lágrimas. Quando as engrenagens estão duras e emperradas, coloca-se óleo para que fiquem flexíveis. A melhor maneira de amolecer um coração duro e enternecê-lo, é untá-lo com este óleo do amor. É por essa razão que a advertência se inicia com "Meus amados ". Agora passarei à exortação em si: "desenvolvei a vossa vocação com temor e tremor ", cujas palavras se dividem em três particulares. Primeiro, a ação: "desenvolvei". Segundo, o objeto: "sua salvação ". Terceiro, o modo, ou a maneira como devemos desenvolvê-la: "com temor e tremor ". Falarei principalmente das duas primeiras, e retornarei brevemente à outra na aplicação. A proposição é a seguinte: deve ser a maior tarefa do cristão desenvolver sua própria salvação. O grande Deus nos colocou no mundo como se fosse numa vinha, e aqui está a tarefa que Ele nos deu, o desenvolvimento de nossa salvação. Há um versículo paralelo a este em II Ped. 1:10: "procurai fazer cada vez mais firme a vossa vocação e eleição... " Quando não se pode garantir o status, os amigos ou a vida, garante a sua eleição. A palavra grega para "fazer firme" significa "estudar" ou "quebrar a cabeça" por alguma coisa. A palavra no texto "desenvolver " implica em duas coisas. Primeiro, implica em desven-cilhar-se da preguiça espiritual. A preguiça é o travesseiro no qual muitos têm adormecido o sono da morte. E em segundo lugar, implica em reunir todas as forças de nossas almas com o propósito de desenvolvermos a salvação. Deus ordenou no paraíso que o homem não comesse da árvore da vida, e sim que se sustentasse pelo suor do seu rosto. Aquilo que chamamos "desenvolver " no texto tem vários ignificados nas Escrituras. Primeiro, algumas vezes é chamado de "esforço" - Luc. 13:29: "esforçai-vos por entrar pela porta estreita. " Esforço como se alguém estivesse agonizando ou suando sangue. Segundo, outras vezes é chamado de "busca " - Mat. 6:33: "Buscando em primeiro lugar o reino de Deus ", como um homem que perdeu seu tesouro e procura diligentemente por ele. Quanto a nós, perdemos a salvação. Adão, ao comer da árvore do conhecimento, perdeu aárvore da vida. Quanto à "busca ", guiemo-nos pelo exemplo de Davi e busquemos a salvação. A palavra "buscar ", conforme anotações de um escritor conhecido, significa perseguir alguma coisa com intenso desejo, assim como um condenado deseja o perdão. Terceiro, isso às vezes é chamado "correr numa corrida" - ICor. 9:24: "...correi de tal maneira que o alcanceis. " O apóstolo parece aludir aos jogos olímpicos, os quais eram celebrados a cada cinco anos em honra a Júpiter. Nestes jogos eles punham todas as suas forças. É uma longa corrida da terra para o céu, portanto deixe de lado cada peso do pecado que irá retardá-lo na corrida, e esforce-se apressadamente para garantir sua vitória. Quarto, isso às vezes é chamado "agir com violência" - Mat. 11:12: "...se faz violência ao reino dos céus." Não deve existir somente diligência, mas deve existir violência. Não devemos somente orar, e sim orar ardentemente (Tiago 5:16). Não devemos somente nos arrepender, porém sermos zelosos e arrependidos (Apoc. 3:19); não somente amarmos, mas sermos cheios de amor. (Cantares 2:5). Isto é cometer violência. A palavra grega é uma metáfora tomada do castelo que se oculta entre muralhas e não será conquistada, a não ser que tomado de assalto. Assim o reino dos céus está oculto para o cristão inerte, preguiçoso, e não será conquistado, a não ser por assalto. Passarei agora às razões que fomentam este santo esforço para a salvação, as quais são três. Precisamos desenvolver nossa salvação por causa da: *dificuldade desse trabalho; *excelência desse trabalho; *possibilidade desse trabalho. A dificuldade desse trabalho. Este é um trabalho que pode fazer—nos trabalhar até que o sol de nossas vidas se ponha. Ora, a dificuldade no trabalho do desenvolvimento da salvação aparecerá de quatro diferentes maneiras.
Primeiro, a natureza do trabalho. Há uma metamorfose a ser operada. O coração precisa ser mudado, pois ele é a verdadeira sementeira do pecado. É o depósito onde todas as armas da injustiça estão armazenadas. Ele é um pequeno inferno. O coração está cheio de antagonismo contra Deus. E uma zanga contra a graça salvadora. Quanto trabalho temos pela frente, visto que o coração precisa ser mudado! Quanto precisamos implorar a Cristo, Aquele que transformou água em vinho, que possa transformar a água, ou melhor o veneno, da natureza, no vinho da graça! Segundo, a vida atual deve ser alterada. Para que o fluir do pecado, que antes corria tão forte, possa ser mudado, isso não é fácil. Para que o pecador, que antes estava indo em direção ao inferno, não precisando nem de vento nem de correnteza que o carregasse, possa agora alterar seu curso e navegar para um novo porto, isso é realmente um grande trabalho! Foi porum milagre que o rio Jordão retrocedeu. Ver o homem natural se tornar espiritual, ver o pecador andar contrário a si mesmo em direção aos caminhos de Cristo e à santidade, é tão estranho quanto ver a terra girar ao contrário ou o boliche correr em direção oposta ao seu próprio arremesso.
Desenvolver a salvação é difícil, considerando-se os enganos a respeito do trabalho. O coração está pronto para assumir qualquer ponto em falso nesse desenvolver da salvação. Ele tem engano próprio, como aqueles que pensam poder ludibriar a morte. Por isso Agostinho exclamou: "O coração é um grande abismo." O coração está pronto para ser enganado duplamente sobre esse desenvolvimento da salvação:

1. Ele freqüentemente faz o homem confundir moralidade por graça. Moralidade é nada mais do que natureza refinada, é o velho Adão vestido com melhores roupas. Um homem moralizado não é nada mais do que um diabo manso! Pode ser uma correnteza límpida de civilidade fluindo e ainda assim existir muito verme do orgulho e ateísmo permanecendo no fundo. O refinamento da moral não é nada mais do que uma coroa de flores colocada sobre um defunto. Como é fácil iludir-se quanto ao assunto da salvação e, como fez Ixião, abraçar a nuvem ao invés de Juno! Civilidade não é graça, embora seja um bom caramanchão sob o qual se plantar a vinha da graça.

2. O coração estará pronto para nos enganar no desenvolvimento da salvação e nos fazer tomar um simulacro da graça por graça autêntica. Plínio disse que há uma pedra de berilo que se assemelha ao verdadeiro diamante. Assim sendo, existe alguma coisa que parece graça mas que não é graça. Existem duas graças que ajudam muito o desenvolvimento da salvação e nós facilmente nos enganamos com elas. Primeiro, arrependimento. Verdadeiro arrependimento acontece quando choramos pelo pecado como pecado, quando choramos por ele porque é uma coisa que mancha. Ele apaga a imagem de Deus e mancha a pureza da alma. Como ele é um ato de crueldade, é um soco contra o peito que nos amamentou. Ora, como é fácil prevaricar nisso!

A. Muitos acham que se arrependem quando não é a ofensa e sim a penalidade que os perturba; não a traição, e sim o instrumento punitivo dessa traição.

B. Eles acham que se arrependem quando derramam apenas algumas lágrimas, no entanto, embora esse gelo comece a derreter-se, este congela-se novamente e eles continuam andando no pecado. Muitos choram por causa de seus maltrates com Deus, como Saul em sua maldade para com Davi. Então disse Saul: "Pequei; volta, meu filho Davi, porque não mandarei fazer-te mal; porque foi hoje preciosa a minha vida aos teus olhos. Eis que procedi loucamente, e errei grandissimamente." (I Sam. 26:21). E assim os homens podem levantar suas vozes e chorar por causa do pecado e ainda continuarem nele. Eles são como cobras que trocam sua pele, mas conservam sua picada. Existe tanta diferença entre a verdadeira e a falsa lágrima quanto entre o canal de água eo manancial. Segundo, outra graça que conduz à salvação é a fé, entretanto quão facilmente os homens são enganados com uma pérola falsificada! Há um engano a respeito da fé: quando os homens reivindicam as promessas da Palavra, porém não os seus preceitos. A promessa é salvação, o preceito é "desenvolvimento." Eles aceitarão o primeiro, contudo não o outro, como se o médico pudesse prescrever duas receitas ao seu paciente, uma prescrevendo pílulas e outra prescrevendo bebida alcoólica. Ele irá tomar a bebida porque lhe é agradável, mas não a pílula. Muitos quererão Cristo como Salvador, todavia O recusarão como Príncipe; recebem Seus benefícios, mas não submetem-se às Suas leis. Isto é separar aquilo que Deus juntou. Assim sendo, em virtude de tais enganos e decepções a respeito deste desenvolver da salvação, devemos ser o mais cautelosos e alertas quanto possível nesse trabalho.
Terceiro, a dificuldade em desenvolver a salvação vem dos impedimentos e dos obstáculos. Estes obstáculos são (1) interiores, a saber, a carne. Esta é um inimigo astuto. A carne clama por tranqüilidade: "e cobiça contra o espírito". (Gal. 5:17). Temos a ordem para crucificar a carne, (Gal. 5:24), entretanto quantos golpes precisamos dar com a espada do Espírito até que a carne esteja perfeitamente crucificada! (2) Neste trabalho nos deparamos com obstáculos que são exteriores às tentações. Austin afirmou que toda a nossa vida é uma tentação. Caminhamos por entre armadilhas. Há uma armadilha nas festas, sim, nossa mesa é geralmente uma armadilha. Satanás ainda está tentando pescar nossas almas. Quão freqüentemente ele joga sobre nós uma série de tentações para destruir nossa fortaleza de graça? O apóstolo nos fala destes dardos inflamados. (Ef. 6:16). As tentações são chamadas de dardos pela sua velocidade, elas são disparadas em alta velocidade, e inflamadas por causa de seu terror. Elas são disparadas como rajadas de fogo em direção à alma, a qual se assusta e se assombra, e isto não retardaria o desenvolvimento da salvação e o dificultaria?
(a) Das reprovações. "... é corrente a respeito desta seita que por toda parte é ela impugnada. " (Atos 28:22). A velha serpente está sempre cuspindo seu veneno contra a religião e aqueles que a professam. Quero mencionar aquele versículo em I Cor. 10:1: "... nossos pais estiveram todos debaixo da nuvem..." Todos os santos do passado foram para o céu debaixo de uma nuvem de palavras rudes e reprovações. O mundo os colocou em seu livro negro enquanto Deus os colocou em Seu livro com letras garrafais!
(b) A garganta do ímpio é um sepulcro aberto para enterrar o bom nome daqueles que foram os baluartes da religião e carregaram suas cores. (b) Às vezes eles foram difamados e injuriados. Paulo foi considerado um homem sedicioso. (II Tm. 2:9). Os papistas remistas difamaram Calvino e o culparam por ensinar que Deus era o autor do pecado, e disseram que ele morreu blasfemando, embora Beza, que foi testemunha ocular eescreveu sua vida e morte refutasse tal injúria, e relatou que final abençoado ele teve. Martin Bucer, aquele homem abençoado que gritou em santo triunfo: "Eu sou de Cristo e o diabo nada tem a ver comigo" foi caluniado pelos papistas que afirmaram ter ele negado que Cristo fosse o Messias encarnado. Mas aquele que foi o orador em seu funeral testemunhou pelo seu caráter sob juramento. Os Jesuítas na Burgundia cometeram a mesma calúnia a respeito de Beza, aquele santo homem. Eles disseram que ele, sentindo que a morte estava próxima, renunciara à sua profissão do evangelho e se reconciliara totalmente com a igreja de Roma. Isso era tão falso que o próprio Beza, que viveu ainda após tal calúnia ser espalhada, a refutou com grande indignação. Freqüentemente os santos sofreram o açoite das zombarias. (Heb. 11:36). Cipriano foi chamado, sarcasticamente, de Copriano; Atanásio, de satanásio; Davi foi a canção dos bebedores de bebidas fortes, (Sal. 69:12). Eu não tenho dúvidas de que Noé foi vítima de amarga zombaria quando estava construindo a arca muitos anos antes do dilúvio. Eles riram dele e o censuraram como a um velho tolo, caduco, que na realidade foi o mais sábio comparado a todos os do seu tempo. Por conseguinte, quando virmos o dilúvio da ira de Deus vindo sobre o mundo e começarmos a construir a arca e a "desenvolver nossa salvação ", os homens darão vazão ao seu desdém e escárnio: "Oquê? Vocês serão mais santos do que os outros? Vão fazer além do necessário?" Tudo isso serve para retardar e dificultar o desenvolvimento da salvação.
(c) Um terceiro obstáculo neste desenvolvimento é a violência declarada: "Mas, como então aquele que era gerado segundo a carne perseguia o que o era segundo o Espírito, assim é também agora. " (Gal. 4:29). Tão logo um homem se renda a Cristo e seriamente comece a desenvolver sua salvação, o mundo levanta seus bandos treinados e manda toda a milícia do inferno contra ele. A Igreja de Cristo é como a ovelha de Abraão presa numa touceira de espinhos. Dêem testemunho as dez perseguições nos dias de Nero, Domiciano, Trajano, etc. Um homem que seja realmente santo é o alvo favorito para as críticas. Se a música do mundo não prevalecer, então ele tem sua fornalha acesa. (II Tm. 3:12). Estejam certos de que Cristo e Sua cruz nunca se separam. Ela está conosco em nossa preparação para o céu assim como esteve com os judeus na sua reconstrução do muro: "...cada um com uma mão fazia a obra e na outra tinha as armas. " (Nee. 4:17). Portanto não somente devemos ser construtores, e sim também guerreiros. Com uma mão devemos trabalhar, e com a outra segurar uma arma, a saber, a espada do Espírito, e combater o bom combate da fé. Este é também outro obstáculo ao desenvolvimento. Tão logo nos pomos a caminho do céu: "...me esperam prisões e tribulações. " (Atos 20:23). O mundo faz soar um alarme e não haverá trégua até à morte. Quarto, aquilo que torna difícil o desenvolvimento da salvação é otrabalho não confiável. Olhem ".. .por vós esmos para não perderdes aquelas coisas as quais temos obtido. " (II João v. 8) Este trabalho é derrubado quase tão rapidamente como é construído. Um artífice, quando está trabalhando, encontra seu trabalho na manhã do dia seguinte da mesma forma que o deixou na noite anterior, mas isto não acontece conosco. Quando estamos desenvolvendo nossa salvação pela oração, jejum, e meditação, e interrompemos este trabalho por algum tempo, ao voltarmos a ele não mais o encontraremos como deixamos. Uma grande parte do nosso trabalho terá sido derrubada novamente. Precisamos estar continuamente alertas. "Sê vigilante e confirma os restantes que estavam para morrer; porque não achei as tuas obras perfeitas diante de Deus. " (Apoc. 3:2). Tão logo um cristão seja tirado do fogo do santuário, ele estará pronto para esfriar e congelar novamente na segurança. Ele é como um relógio de pulso: quando lhe dão corda em direção ao céu, ele rapidamente desenrola-se para a terra e para o pecado novamente. Quando ouro é purificado na fornalha, ele se mantém puro, porém isso não acontece com o coração. Deixe-o aquecer com uma ordenança, deixe-o purgar no fogo da aflição. Ele não se mantém puro mas rapidamente junta óleo e corrupção. Nós raramente permanecemos bem dispostos por muito tempo. Tudo isso mostra o quanto é difícil desenvolver a salvação. Não somente devemos trabalhar, mas também vigiar.

Questão 1. Mas por que Deus fez o caminho para o céu tão difícil? Por que tanto trabalho?

Resposta 1. Para ensinar-nos a valorizar as coisas celestiais. Se a salvação viesse facilmente, não lhe daríamos o devido valor. Se os diamantes fossem comuns teriam pouca importância, entretanto, visto que são tão difíceis de serem conseguidos, são tão valorizados. Tertuliano conta que quando as pérolas eram comuns em Roma, as pessoas as usavam em seus sapatos, cujo próximo passo era esmagá-las sob seus pés. A salvação é uma pérola que Deus não permite ser desconsiderada. Portanto, deverá ser conseguida com trabalho santo. Deus não permitirá que baixem os preços das misericórdias espirituais. Aqueles que têm esta preciosa flor da salvação devem colhê-la com o suor de seus rostos. Devemos trabalhar e nos esmerar para podermos estar qualificados para o céu. Um pai deixará sua herança ao filho, todavia primeiro ele lhe dará uma educação para que possa estar qualificado para ela. Deus nos dá a salvação, contudo primeiro Ele "nos fez idôneos para participar da herança dos santos na luz. " (Col. 1:12). Enquanto estamos trabalhando, estamos correndo e nos adequando para o céu. O pecado está sendo enfraquecido, a graça está sendo amadurecida. Enquanto estamos em combate, estamos nos preparando par a a coroa. Primeiro se amadurece o odre antes de colocar o vinho. Deus irá nos amadurecer com a graça antes de derramar o vinho da glória.

Questão 2. Mas se deve haver este trabalho, como se diz que o jugo deCristo é suave?

Resposta 2. Para a parte carnal é difícil, porém onde há a infusão de um novo e santo princípio, o jugo de Cristo é suave. Não é um jugo, e sim uma coroa. Quando as rodas da alma são lubrificadas com graça, então um cristão se move no caminho da religião com facilidade e alegria. Uma criança se alegra em obedecer a seu pai. Para Paulo servir ao Senhor era océu: "... segundo o homem interior tenho prazer na lei de Deus. " (Rom. 7:22). E quão rapidamente a alma é levada por essas asas! O serviço de Cristo é a liberdade de Cristo, portanto o apóstolo chama isso de "lei da liberdade " (Tg. 1:25). Servir a Deus, amar a Deus, ter prazer em Deus, é a mais doce liberdade do mundo. Cristo não faz como fez Faraó: "... faziam servir os filhos de Israel com dureza " (Ex. 1:13), mas Ele põe sobre eles os constrangimentos do amor: " ...o amor de Cristo nos constrange... "(II Cor. 5:14). Seus preceitos não são cargas, são privilégios; não são obstáculos, são ornamentos. Portanto, Seu jugo é leve, mas para o homem não regenerado este fardo tem um peso que o atormenta e aborrece. Quando a corrupção prevalece, ainda o melhor coração encontra alguma relutância. É isso que precisa ser levado em conta quanto à primeira razão que citamos, a dificuldade do trabalho. A segunda razão porque precisamos de muito suor santo e esforço no desenvolvimento da salvação é devido à excelência desse traba lho. Pouco serão salvos, portanto devemos trabalhar o máximo que puder mos para estarmos entre esses poucos. O caminho para o inferno ó largo, ele está repleto de riquezas e prazeres. Ele tem uma rua de ouro, por isso há muitos que viajam por ele; no entanto, o caminho para o céu não lhes é atraente. Não é uma trilha batida, e poucos podem achá-la. Os anunciadores da graça universal dizem que Cristo morreu intencionalmente por todos, mas então por que nem todos são salvos? As intenções de Cristo poderiam ser frustradas? Alguns afirmam tão grosseiramente que todos serão realmente salvos, porém não foi o que disse o Senhor Jesus: "estreita éaporta e apertado o caminho que leva à vida, epoucos há que a encontrem. " (Mat. 7:14). Ora, como todos podem entrar por essa porta e poucos a encontrarem, para mim parece um paradoxo! A manada dos homens vai para o matadouro, "mas o remanescente será salvo. " (Rom. 9:27). A peça inteira é cortada e vai para o diabo. Somente um remanescente será salvo. A maioria das pessoas no mundo é fruto caído da árvore, derrubado pelo vento. Aquela oliveira em Is. 17:6 com duas ou três azeitonas na mais alta ponta dos ramos, é um símbolo apropriado do reduzido número daqueles que serão salvos. Satanás vai embora com a colheita, Deus tem somente alguns rabiscos. Nesta grande cidade se fizéssemos uma votação ou uma pesquisa de opinião, o diabo certamente venceria. Baseado no que aprendemos, observe que se fôssemos dividir omundo em trinta partes iguais, dezenove destas trinta estão cobertas de idolatria barbaresca, seis dos onze restantes com a doutrina de Maomé, de modo que restaria apenas cinco partes das trinta onde há um pouco de cristianismo. Entre estes "cristãos" há muitos seduzidos pelos papistas por um lado e protestantes formais por outro, de forma que há poucos que são salvos. Assim sendo, isso deve levar-nos a um esforço cada vez maior para fazermos parte do pequeno número daqueles que herdarão a salvação. A terceira razão porque devemos pôr tanto vigor neste trabalho é devido a possibilidade do mesmo. A impossibilidade mata todo o esforço. Quem irá sofrer por algo que não tenha a esperança de conseguir? Mas "... no tocante a isto ainda há esperança para Israel. " (Esd. 10:2). A salvação é algo viável, ela pode ser conseguida. Ó amigos, embora a porta do paraíso seja estreita ela ainda está aberta. Está fechada para os demônios, aberta porém para vocês. Quem não se esforçaria por entrar por ela? É uma questão de livrar-se de seus pecados, remover esta fina camada de barro que os mascara, desinflar seu orgulho e assim talvez vocês possam entrar pela porta estreita. Esta possibilidade da salvação, aliás probabilidade, deve fazer com que vocês empenhem sua vida neste esforço. Se há alimento, por que continuarem por mais tempo morrendo de fome em seus pecados?

APLICAÇÃO

1. Informação. Este texto mostra que a salvação não é algo tão fácil como tantos imaginam. Muitos fantasiam um modo elegante e fino de se chegar ao céu; um suspiro, ou lágrima, ou "Senhor, tenha misericórdia" supondo que isso irá salvá-los. Aqueles que assim crêem estão num sonho dourado. O texto nos fala de desenvolver nossa salvação. Basílio compara o caminho para o céu com um homem passando por uma ponte estreita. Se ele caminhar muito na beira ele cai e se afoga. Aquele que pensa que o caminho é fácil, nunca esteve realmente no caminho. Há tantos preceitos a serem obedecidos, tantas promessas nas quais crer, tantas tentações para se resistir que não acharemos fácil o caminho. Não basta apenas a diligencia, tem que haver também a violência. Amados, a porta do céu não é igual àquela porta de ferro que se abriu para Pedro espontaneamente. (Atos 12:10). Não, é necessário bater e forçar. Jacó obteve a bênção por causa dos trajes de Esaú, os quais vestiu. O nome Esaú em Hebraico significa trabalho. Se alguém usa o traje bordado da salvação, deve consegui-lo trabalhando: "desenvolvei a vossa salvação ". O general Anibal abriu caminho para seu exército através dos Alpes. Devemos abrir nosso caminho para a glória em meio as dificuldades. Gosto da resposta dada, de pronto, por um homem com uma picareta escavando um caminho através da rocha: "Encontrarei o caminho ou abrirei um!" Devemos ir para o céu através do suor e do sangue. Não se consegue nada sem trabalhar duro. Você não pode ter o mundo sem trabalhar, e comoteria Cristo e a salvação sem fazê-lo? Um homem escava para achar uma saída e não escavaria muito mais para achar ouro? Observa--se que Adão no paraíso não ficou ocioso, mas ele cuidou da vinha. Mesmo os anjos, embora sejam espíritos gloriosos, são também espíritos ministradores. (Heb. 1:14). Deus colocou diligência mesmo nas criaturas destituídas de razão. A abelha é a criatura mais laboriosa, todas têm sua própria tarefa para desenvolver na colmeia. Algumas abelhas produzem o mel, outras fazem a cera, algumas moldam o favo, e outras ficam de sentinela à porta da colmeia para afastar o zangão. A abelha seria tão diligente em função do instinto da natureza na fabricação do mel? Oh, quão laboriosos devemos ser no desenvolvimento de nossa salvação!

2. Censura. Posso retirar deste texto, que considero uma aljava espiritual, muitas flechas de reprovação.

A. Ele reprova aqueles que, em lugar da salvação, preferem outras coisas, que trabalham mais pelo pão que perece do que pela salvação. Sua preocupação principal consiste em viver neste mundo e conseguir sua subsistência. "Todo trabalho do homem épara a sua boca. " (Ecl. 6:7). O corpo é inclinado a isto e se empenha, essa é sua parte animal, por outro lado a pobre alma fica completamente à míngua. Dessa forma os cristãos agem como pagãos: "assim fazem os gentios ". (Mateus, capítulo 6). Deus não nos mandou aqui somente para usarmos roupas finas ou nos alimentarmos fartamente todos os dias, porém para que pudéssemos nos empenhar em nossa salvação. Se isso não for feito, estaremos atirando aquém da marca o tempo todo. Temos empunhado a bainha da espada e deixado a alma, essa lâmina de admirável têmpera, enferrujar e gangrenar.

B. Ele reprova aqueles que, ao invés de trabalharem, ficam ociosos na vinha durante todo o dia. Eles desejam a salvação, entretanto não fazem o trabalho. O cristão ocioso é como um soldado que está interessado no espólio e no tesouro de um castelo, todavia reluta em arriscar-se ou teme meter-se em apuros. Os homens estariam contentes se fosse possível obter a salvação da mesma maneira que aconteceu com os figos temporões de Naum 3:12: "caíram na boca de quem os haveria de comer ". O preguiçoso "esconde a sua mão no seio " (Prov. 19:24), e hesita em retirá-la, ainda que fosse para pegar uma coroa. "Que dormis em camas de marfim ". (Amós 6:4). Os homens preferem antes, dormir numa cama macia do que ir para o céu num flamejante carro de zelo. Crisóstomo chama a preguiça de raiz do desespero. Um cristão inativo gasta seu tempo inutilmente. Ele vive no mundo em busca de cifras, mas esteja certo de que Deus não registra cifras no Livro da Vida. Uma pessoa inativa é um solo fértil para o diabo trabalhar nele. Não costumamos lançar a semente numa terra despreparada, contudo o diabo lança a maioria das suas sementes de tentação nos corações despreparados. Jerônimo faz a seguinte observação sobre o caranguejo. Enquanto a ostra se abre, ocaranguejo joga uma pedrinha em sua boca de modo que ela não possa mais se fechar e então o caranguejo a devora. O diabo é como este caranguejo quando ele pega os homens bocejando (o que é comum para aqueles que são preguiçosos), então ele atira suas pedras de tentações em suas bocas e os devora.

C. Ele reprova aqueles que, ao invés de fazerem da religião um trabalho, fazem dela uma brincadeira. Estes são aqueles que têm encontrado um novo caminho para o céu, que tornam o caminho mais fácil do que Cristo jamais o fez! Assim, como dizer que não há lei para o crente, e se não há lei, então não há transgressão, e se não há transgressão não há necessidade de arrependimento. Entre o arminiano e o antinomiano há um atalho para o céu. O arminiano diz que temos poder em nós mesmos para crer, e o antinomiano diz que o crente não está debaixo de nenhuma lei, ele não está obrigado a nada. Cristo fez tudo por ele, de modo que dando este passo ele está automaticamente no céu. Se esta doutrina é verdadeira, então todos os dias são dias de folga, e o apóstolo cometeu um erro quando disse: "desenvolvei a vossa salvação ".

D. Ele reprova aqueles que, ao invés de desenvolverem a própria salvação, discutem-na, como se pudessem argumentar contra a autoridade das Escrituras e fazer de nossa fé uma fábula; tal como argumentar contra a imortalidade da alma e assim de uma vez por todas derrubar o tribunal da consciência; como se pudessem argumentar contra a divindade de Cristo. Esta pode ser chamada, realmente, de doutrina de demônios. (I Tim. 4:1). É uma doutrina diametralmente oposta ao versículo em I João 5:20: "E no que é verdadeiro estamos, isto é, em seu filho Jesus Cristo, este é o verdadeiro Deus e a vida eterna. " Este texto é uma proteção contra o socinianismo. Oh, que paciência Deus tem para com aqueles que abrem suas bocas para blasfemar contra Cristo, para que a terra não se abra para engoli-los! É lamentável que os tais se atrevam a contestar a divindade do Filho de Deus, mas isso será para a própria condenação deles. Alguns dos melhores escritores pagãos (Livio, Aristóteles, Plutarco) afirmam que houveram sentenças e punições decretadas por príncipes e governadores pagãos a respeito da religião. Se o pagão não permitia que o seu deus fosse blasfemado, porventura os cristãos permitiriam que Cristo fosse blasfemado? E. Ele reprova aqueles que, ao invés de buscarem sua salvação, buscam sua própria destruição. Essas são as pessoas profanas que vão para o inferno através do suor de seus próprios rostos:

(i) . Os bêbados. O que eles ganham no templo, perdem no bar. Eles colocam de molho no vinho os sermões que ouviram. "Ai da coroa de soberba dos bêbados de Efraim ". (Is. 28:1). Eu poderia mudar a expressão e dizer "os bêbados da Inglaterra." Há um tipo de vinho que é chamado lácrimo, o qual significa lágrimas. Tal vinho que o condenado bebe é inflamado pela ira de Deus, e este será o cálice dos bêbados.

(ii) . Os blasfemadores. Eles blasfemam até o ponto de perderem a salvação. O blasfemador, ao que parece, não tem crédito. Ele precisa apoiarse em juramentos (blasfêmias) ou ninguém acreditará nele. Mas deixem-me lembrar-lhes que a alma dele esbarra na admoestação "de maneira nenhuma jureis". (Mat. 5:34). Se temos que prestar contas das palavras vãs, não serão os vãos juramentos (blasfêmias) levados em conta e registrados no livro razão? Quando a escara aparece no lábio, tal homem deve ser considerado impuro. Cada juramento é uma ferida para a alma, e cada ferida tem uma boca que clama aos céus por vingança. Alguns chegam a um ponto de perversidade, que voam no rosto de Deus como cachorros loucos, amaldiçoando

(iii). Os adúlteros. O coração do adúltero, como a língua do blasfemo é inflamado pelo fogo do inferno. Mesmo as criaturas destituídas de razão se levantarão no julgamento contra os tais. Diz-se da cegonha, aquela singela criatura, que se confina em seu próprio ninho, e se alguma delas deixa seu próprio companheiro e se junta com qualquer outro, o resto cai sobre ela e lhe arrancam todas as suas plumas. Deus condena o adúltero à morte. (Deut. 22:22). Gregório observa, a respeito da chuva de fogo e enxofre derramado sobre Sodoma, que Deus enviou aquela praga nociva para levá- los a ver a hediondez de seu pecado. O pecado do adultério é uma maldição sobre a alma. (I Cor. 6:9). O adúltero, como a mariposa, voa tanto tempo ao redor da vela que por fim chamusca sua alma. Este pecado, embora comece comicamente, termina em tragédia! Não será "amargo no fim ? " (II Sam. 2:26). Esta doce calma precede um terremoto. Depois dos cabelos da mulher vem os dentes do leão. F. Ele reprova aqueles que adiam o desenvolvimento da salvação até que não podem mais trabalhar. Eles adiam o arrependimento até chegarem à idade avançada e à enfermidade.

(i). Até à idade avançada. Quando puderem realizar mais nenhum outro trabalho, então começarão este. A idade avançada não é uma boa idade para se arrepender. Quando os dedos já estiverem endurecidos, fica difícil aprender a tocar alaúde. Quando o coração já estiver inflexível e endurecido pela maldade, fica difícil subjugá-lo em penitência. Uma plantatenra é facilmente removida, porém é difícil arrancar uma velha árvore que já esteja enraizada. Um pecador idoso que tenha estado muito tempo enraizado no pecado dificilmente é arrancado de seu estado natural. Em matéria de salvação é perigoso adiar. Quanto mais tempo os homens estiverem no pecado, mais ampla será a possessão de satanás sobre eles. Quanto mais tempo o veneno permanecer no estômago, mais mortal será. É uma loucura adiar o desenvolvimento da salvação até o cair da tarde, até o pôr do sol. "A noite vem, quando ninguém pode trabalhar. " (João 9:4). Um marinheiro seria muito imprudente se permanecesse ancorado quando o navio está equipado, com as máquinas com capacidade, vento favorável, e o mar calmo, porém ao chegar a tempestade e o navio começar a se encher de água, então se decidisse a içar velas para a viagem. Esta é a condição daquele que negligencia a saúde e o vigor, e quando a idade avançada chega e sua máquina estiver já arruinada, então ele começa a pensar na sua viagem em direção ao céu. E muito questionável se Deus irá aceitar o arrependimento dele quando já é tão tarde. Ele chama para os primeiros frutos, e achamos que podemos oferecer-Lhe só o restolho? Este não foi o menor dos motivos pelos quais Deus rejeitou a oferta de Caim, pois aquela oferta foi feita com muito tempo de atraso. "E aconteceu que ao cabo de dias que Caim trouxe do fruto da terra uma oferta ao Senhor " (Gen. 4:3), ou, como no original que é mais enfático: "depois de muitos dias. " Parece que já estava estragada quando foi trazida. Não seria indigno os homens darem ao diabo seu vigor e suas forças e trazerem diante do altar de Deus seus ossos velhos e sem nenhum vigor? É verdade que Deus pode mostrar Sua misericórdia no final, contudo isso pode ser um risco perigoso. O pecador, na idade avançada, dorme entre a morte e o diabo como Pedro dormiu entre os dois soldados.

(ii). Até chegará enfermidade. Seria muito imprudente que, aquele que se prepara para uma longa jornada colocasse a bagagem sobre o cavalo mais fraco. Não seria imprudência colocar a bagagem pesada do arrependimento sobre si quando você está tão fraco por causa da enfermidade? Quando as mãos vacilam, os lábios tremem, as forças diminuem, e o coração desfalece? Possivelmente você não sofrerá enfermidades, possivelmente não terá o uso de seus sentidos. É possível que Deus negue Sua graça a você e então onde estará seu arrependimento? É provável que aquele que se esquece de Deus em tempos de saúde, Deus Se esqueça dele em tempos de enfermidade. G. Ele reprova aqueles que começam a trabalhar, mas não desenvolvem sua salvação. Não basta ter um bom começo. Alguns há que, como Jeú, atiram-se com tudo na religião, mas em pouco tempo seu esmorecimento é bem visível. Nós vivemos no outono. Observamos muitos que uma vez floresceram e deram boas esperanças de conversão, porém suas primaveras transformaram-se em outonos. Pararam de trabalhar para o céu, um sinal de que a motivação era apenas superficial e não vital. "Israelrejeitou o bem". (Os. 8:3). Eles que uma vez foram diligentes e zelosos na oração, que se reuniam santamente, agora deixaram as coisas boas. Eles se cansaram em sua caminhada para o céu. Eu tenho pensado com freqüência que há muitos que podem ser comparados à imagem de Nabucodonosor em Daniel, capítulo 3. A princípio eles pareciam ter a cabeça de ouro. Eles se assemelhavam a gloriosos professores. Então depois pareciam ser prata, depois cobre, ferro e então barro. Eles por fim se degeneraram no pecado. Assim, como acontece com manhãs ensolaradas, eles rapidamente se tornaram nublados. Epifanios fala dos gnósticos que a princípio pareciam ser um povo santo e rigoroso, todavia posteriormente caíram na libertinagem. Alguns se tornaram tão impudentes que vangloriaram--se de sua apostasia. Foram os tempos quando eles liam e oravam com suas famílias, mas agora agradecem a Deus porque têm se tornado mais sábios e abandonaram essas tarefas. Bem como se você pudesse ouvir o diabo vangloriando-se de que primeiro era um anjo de luz, porém agora se transformou no anjo das trevas. Os apóstatas são os mais ricos despojos que satanás leva consigo. Ele irá dependurá-los no inferno como seu troféu de triunfo. Os tais que deixaram de trabalhar, que leiam este trovejante versículo em II Ped. 2:21: "Porque melhor lhes fora não conhecerem o caminho da justiça, do que, conhecendo--o, desviarem-se do santo andamento que lhes fora dado. " Ao deixar de trabalhar, eles perderam tudo o que haviam feito antes. Eles perderam sua recompensa. Aquele que corre metade da corrida e depois desmaia, perde o prêmio.

3. E assim eu passarei para o próximo ponto de aplicação, que é o da exortação, para persuadir a todos, pelas misericórdias de Cristo, a desempenharem este grande trabalho, o desenvolvimento de sua salvação. Amados, eis aqui uma fórmula para chegar ao céu, e eu incluiria a todos nesta fórmula. Reúnam todas as forças de suas almas, não dêem descanso nem a Deus nem a vocês mesmos até que tenham confirmada sua eleição. Cristãos, não deixem de trabalhar. Façam isso imediata, honesta e incessantemente. Persigam a salvação como se fosse uma caçada santa. Outras coisas são assuntos de simples conveniência; salvação é uma questão de necessidade. Ou vocês fazem o trabalho que os cristãos estão fazendo ou vocês farão o trabalho que os demônios estão fazendo. Oh, vocês que ainda nem começaram a desenvolver sua salvação, comecem agora. Religião é uma boa ocupação se for seguida corretamente. Estejam certos de que não existe salvação sem obras. No entanto, aqui eu devo registrar um aviso para evitar enganos. Cuidado. Embora não sejamos salvos sem obras, ainda não somos salvos por causa de nossas obras. Belarmino disse que merecemos o céu apesar de nossa indignidade. Não, embora sejamos salvos pelo uso dos meios, somos também salvos pela graça. (Ef. 2:5). E necessário arar o solo e semear, mas não podemos esperar nenhuma colheita sem a influência do sol. Assim, é necessário trabalhar, porém não se deve esperar a colheita dasalvação sem o brilho do sol da livre graça, "...a vosso pai agradou dar-vos o reino " .(Luc. 12:32). Dar? "Ora", alguns poderiam argumentar, "nós trabalhamos duramente para isso"! Sim, mas o céu é uma doação. Embora alguém trabalhe para alcançá-lo, não deixa de ser a boa vontade de Deus que o concede. Observem ainda que o mérito é de Cristo. Não é o suor do homem, e sim o sangue dEle que salva. Está claro, amigo, que seu trabalho não o torna merecedor da salvação: "porque Deus é o que opera em vós tanto o querer como o efetuar. " (Fil. 2:13). Não é seu esforço e sim o co-esforço de Deus. Assim como o professor guia a mão da criança para que possa escrever, semelhantemente o Espírito de Deus precisa propiciar Sua cooperação, ou nosso esforço torna-se inútil. Como pode então o homem ter mérito pelo trabalho quando é Deus que o ajuda a trabalhar? Tendo dado este aviso, devo agora reassumir a exortação e persuadi--lo a desenvolver a sua salvação, entretanto primeiro quero remover dois obstáculos que permanecem no caminho.

Obstáculo 1. Você nos exorta a desenvolver nossa salvação, mas não temos nenhum poder para isso.

Resposta 1. É verdade, não temos nenhum poder. Nego que tenhamos livre-arbítrio. O homem, antes da conversão, é puramente passivo. Daí as Escrituras chamarem isso de "coração de pedra ". (Ez. 33:6). O homem em seu estado natural não pode preparar-se para a sua própria conversão mais do que a pedra pode preparar-se para ser amolecida. Não obstante, quando Deus começa a atrair podemos seguir. Aqueles ossos secos em Ezequiel não poderiam, por si mesmos viverem, porém quando o sopro veio sobre eles, então "viveram, e se puseram em pé". (Ez. 37:10). Pergunta. Que tal se Deus não tivesse implantado o princípio da graça? E se Ele não tivesse dado o sopro de vida? Resposta. Mesmo assim, use os meios. Embora você não possa trabalhar espiritualmente, trabalhe fisicamente. Faça o que você é capaz de fazer, e isso, por duas razões:

1. Porque o homem, negligenciando os meios, se auto-destról, como o homem que não vai para o médico, pode ser responsabilizado pela sua própria morte.

2. Porque Deus nunca está em débito conosco, mesmo quando fazemos o que somos capazes de fazer. A promessa urge: "buscai e encontrareis." (Mat. 7:7). Transforme esta promessa em súplica através de oração. Você diz que não tem poder, porém você não tem uma promessa? Aja da melhor maneira que você puder. Embora eu não me atreva a dizer, como os arminianos, que quando nos esforçamos e seguimos em frente, Deus é obrigado a conceder graça, entretanto digo que Deus não está endividado àqueles que buscam Sua graça. Não, e digo mais. Ele não nega Sua graça a ninguém, a não ser àqueles que deliberadamente a recusam.

Obstáculo 2. O segundo obstáculo é este: mas para que finalidadedevo trabalhar? Há um decreto estabelecido. Se Deus decretou que devo ser salvo, serei salvo.

Resposta 2. Deus decreta a salvação sem desprezar esforço. (II Tess. 2:13). Orígenes, em seu livro contra Celsus, observa um sutil argumento daqueles que discutem sobre sorte e destino. Alguém deu um conselho ao seu amigo doente de que não fosse para o médico porque, ele disse, está escrito pelo destino se você vai se recuperar ou não. Se for seu destino recuperar-se então você não precisa do médico, e se não for seu destino, então o médico não lhe fará nenhum bem. A mesma falácia é usada pelo diabo contra os homens. Ele os induz a não se empenharem. Se Deus tiver decretado que eles serão salvos, eles serão salvos e não há necessidade de porfiar. Se Ele não tiver decretado sua salvação, então o trabalho deles não lhes fará nenhum bem. Este é um argumento retirado do pensamento do diabo. Mas dizemos que Deus decreta o fim usando os meios. Deus decretou que Israel entraria em Canaã, contudo primeiro eles deveriam lutar contra os filhos de Anaque. Deus decretou que Ezequias deveria recuperar-se de sua doença, porém ordenou que colocasse pasta de figos como emplasto sobre as chagas. (Is. 38:21). Não usamos tais argumentos em outros assuntos. Um homem não diz: "Se Deus decretou que eu terei uma colheita este ano, eu terei uma colheita este ano! Por que eu terei que arar, semear ou adubar a terra?" Não, ele usará os meios e esperará pela colheita. Embora "a bênção do Senhor é que enriquece " (Prov. 10:22), e isso é uma verdade, "a mão dos diligentes enriquece" (Prov. 10:4). Os decretos de Deus são executados através de nosso trabalho. E assim, amigo, tendo removido estes obstáculos, deixe-me agora persuadi-lo a empenhar-se neste trabalho abençoado, o desenvolvimento de sua salvação. E, para que minhas palavras possam prevalecer, eu proporei vários argumentos com a finalidade de motivá-lo a este trabalho.

1. O primeiro argumento ou motivo para trabalhar é retirado da preciosidade da alma. Bem podemos nos esmerar para que possamos estar a salvo do perigo. A alma é a divina centelha acesa pelo sopro de Deus. Ela supera o mundo em valor e importância. (Mat. 16:26). Se o mundo é o livro de Deus, como Orígenes o chama, a alma é a imagem de Deus. Platão chama a alma de o refletor da Trindade. É um espelho vívido, o qual reflete o brilho da sabedoria e da santidade de Deus. A alma é o florir da eternidade. Deus fez a alma capaz de ter comunhão com Ele. Pagar a metade do valor de uma alma levaria o mundo à bancarrota. A que preço avaliou Cristo a alma quando Se vendeu para comprá-la? Oh, que pena que essa alma excelente, essa alma pela qual Deus convocou um conselho no céu quando a criou, possa fracassar e ficar perdida por toda a eternidade. Quem não trabalharia noite e dia para não perder essa alma? A jóia é inestimável, a perda é irreparável.

2. A diligência santa e o esforço enobrecem o cristão. Quanto mais excelente for alguma coisa, mais dinâmica será. O sol é uma gloriosa criação.Ele nunca fica parado, está sempre girando em seu circuito ao redor do mundo. O fogo é o elemento mais puro e o mais ativo, ele está sempre inflamado e flamejando. Os anjos são as criaturas mais nobres e as mais ágeis. Portanto são representados pelo querubim com suas asas abertas. Deus em Si é o ato mais puro. Homero disse que Agamenon algumas vezes assemelhava-se a Júpiter em suas feições, Palas em sua sabedoria, Marte em seu valor. Através da santa diligência nos assemelhamos a Deus que é o ato mais puro. A fénix voa com uma pequena coroa em sua cabeça. O cristão esforçado não precisa de coroa sobre sua cabeça, seu suor o enobrece. Seu trabalho é sua insígnia de honra. Salomão nos diz que: "...a sonolência faz trazer os vestidos rotos. " (Prov. 23:21). A infâmia é um dos trajes que o cobre. Deus odeia o temperamento lasso. Lemos na lei que o asno, sendo uma criatura estúpida, não poderia ser oferecida em sacrifício. A atividade espiritual é um distintivo de honra.

3. Desenvolver nossa salvação é o que fará com que tanto o céu como a morte sejam algo doce para nós.

A. Isso adoçará a morte. Aquele que trabalha duro durante todo o dia, quão tranqüilamente dorme durante a noite. Você que tem desenvolvido sua salvação durante toda sua vida, quão tranqüilamente poderá deitar sua cabeça no sono da morte na esperança de uma gloriosa ressurreição! Este será um leito estimulante de morte.

B. Isso adoçará o céu. Quanto mais nos esmerarmos por causa do céu, tanto mais doce ele será quando para lá formos. É um deleite para o homem olhar para seu trabalho e ver os frutos aparecerem. Quando ele tem plantado árvores em seu pomar ou plantado mudas, é um deleite observar e rever seu trabalho. Assim, no céu, quando virmos o fruto obtido de nosso esforço: "o fim de nossa salvação " (I Ped. 1:9), isso fará o céu muito mais doce. Quanto maiores forem os esforços para se alcançar o céu, tanto mais bemvindo ele será. Quanto mais suor, tanto mais doçura. Quando o homem peca, o prazer se vai e as acutiladas permanecem, mas quando ele se arrepende, o labor se vai e o gozo permanece.

4. Vocês ainda têm tempo para trabalhar. Este texto, ou sermão, estaria fora da época para ser pregado para o execrável no inferno. Se eu lhes ordenasse que trabalhassem, já seria tarde demais. O seu tempo já passou. É noite com o diabo, mas hoje é ainda dia para vocês. "...trabalhem enquanto édia " (João 9:4). Se vocês perderem seu dia, perderão suas almas. Este é o tempo para suas almas. Agora Deus ordena, agora o Espírito sopra, ministros suplicam, até mesmo as campainhas de Arão soariamnas suas almas chamando-os para Cristo. Oh, aproveitem a época! Este é seu tempo de semear; semeiem agora as sementes da fé e do arrependimento. Se na época certa vocês não têm o desejo, virá o tempo em que terão o desejo e não terão mais a época certa. Aproveitem o tempo enquanto podem. O marinheiro iça suas velas enquanto sopram os ventos. Nunca um povo teve ura caminhotão aberto para o céu como as pessoas desta cidade, e não iriam vocês prosseguir adiante em suas viagens? E como corre para o final este tempo! Eu lhes asseguro que o Grande Legislador não atrasará Seu chamado. Oh, meus irmãos, agora é o tempo de chamada para suas almas. Agora supliquem a Deus por misericórdia, ou pelo menos peçam a Cristo que faça isso por vocês. Pensem seriamente sobre estes oito itens:

Primeiro, nossa vida se vai rapidamente. Gregório compara nossa vida com um marinheiro navegando a todo vapor. Estamos cada dia navegando rapidamente em direção à eternidade.

Segundo, os tempos da graça, embora sejam preciosos, não são permanentes. A misericórdia desprezada será como a pomba na arca de Noé, abrirá suas asas e voará para longe de nós. A época áurea da Inglaterra - e da humanidade - irá passar rapidamente. As bênçãos do evangelho são muito doces, porém são muito passageiras. "Mas agora isto está encoberto aos teus olhos." (Luc. 19:42). Não sabemos quando o candelabro dourado poderá ser removido.

Terceiro, haverá um tempo quando o Espírito terá parado de contender. Há um fluir do Espírito, o qual, tendo sido negligenciado, é possível que não tornemos a ver um novo fluir acontecer. Quando a consciência pára de acusar, geralmente é porque o Espírito cessou de contender.

Quarto, a perda das oportunidades do evangelho será o inferno do inferno. Quando então, no último dia, o pecador deverá pensar consigo mesmo: "Oh, o que eu poderia ter sido! Eu poderia ser tão rico quanto os anjos, tão rico quanto o céu pudesse me tornar. Eu tive o tempo opor tuno para trabalhar e o perdi. "Isso será como um câncer corroendo-o. Isso intensificará e acentuará sua miséria. Portanto, permitam que tudo isso venha rapidamente persuadi-los a desenvolver a sua salvação.

Quinto, vocês podem desenvolver sua salvação sem que isso os impeça de realizar seu trabalho profissional. Desenvolver a salvação e realizar seu trabalho secular para o qual foi chamado não é inconsistente. E coloco dessa forma para evitar objeções. Alguém poderia dizer: "Mas eu trabalho tanto visando o céu que não tenho tempo para meus negócios." Estejam certos de que o sábio Deus nunca faria com que um de Seus mandamentos interferisse em seu sustento. Da mesma forma como Ele quer que vocês busquem o Seu reino (Mat. 6:33), Ele também quer que supram o sustento de suas famílias. (I Tim. 5:8). Vocês podem desenvolver os dois negócios juntos. Não gosto daqueles que fazem com que a igreja exclua o emprego comercial, fazendo com que passem todo o tempo ouvindo, e assim negligenciando suas responsabilidades no lar. (II Tess. 3:11). Eles são como os lírios do campo, "os quais não tecem nem fiam. "(Mat. 6:28). Deus nunca selou nenhuma autorização a favor da preguiça. Ele ordena e recomenda diligência em sua ocupação, o que pode também nos incentivar abuscar a salvação, porque esta ocupação não nos isentará de nossas outras obrigações. Um homem pode seguir a Deus totalmente como Calebe (Num. 14:34), e ainda fazer como Davi: "...seguiras ovelhas pejadas " (Sal. 78:71).Piedade e diligência devem andar juntas.

Sexto, a inescusabilidade daqueles que negligenciam o desenvolvimento de sua salvação. Eu imagino ouvir Deus discutindo o caso com um homem no último dia, da seguinte maneira: "Por que você não trabalhou? Eu lhe dei tempo para fazê-lo, Eu lhe dei iluminação com que trabalhar, lhe dei Meu evangelho, Meu Espírito, Meus ministros. Eu lhe dei talentos para trabalhar, coloquei a recompensa diante de você. Por que não desenvolveu a sua salvação? Tanto pode ser preguiça quanto obstinação. Teria havido algum outro trabalho de tão grande importância para você fazer? Você trabalhou nos tijolos mas não no ouro. O que poderia dizer a seu favor para que a sentençn tiAo lhe fosse dada?"Oh, como o pecador ficará sem palavras nessa liorn, e como cortará o seu coração pensar em como negligenciou sim salvação sem poder explicar o porquê!

Sétimo, a inexprimível miséria daqueles que não desenvolveram sua salvação. Aqueles que dormem na semeadura mendigarão na colheita. Após a morte, quando estiverem esperando receber uma colheita de glória, eles estarão implorando por uma gota d'agua como fez o rico no hades. Os vadios desocupados são levados presos para serem investigados. Aqueles que não desenvolveram sua salvação, saibam que o inferno é a prisão de Deus para a qual serão mandados.

Oitavo, se tudo isto não os convencer, considerem por último para o que estamos trabalhando. Ninguém se esmera por uma ninharia. Estamos trabalhando por uma coroa, por um trono, por um paraíso, e tudo isso está compreendido em uma só palavra: salvação. Eis algo estimulante em que trabalhar. Todos os homens desejam a salvação. É a coroa de nossas esperanças. Nenhum esforço é grande demais para se conseguí-la. Quantos sacrifícios os homens estão dispostos a fazer para conseguirem o poder e o cetro na terra! Imaginem então se os reinos deste mundo fossem mais gloriosos do que são, com alicerces de ouro, muros de pérolas, janelas de safiras. O que seria isso comparado ao reino pelo qual trabalhamos? Seria mais fácil abraçar todo o universo do que descrever esse reino em todo o seu esplendor e magnificência.
A salvação é uma coisa formosa. Está tão acima de nossos pensamentos quanto está acima de nossos merecimentos. Oh, como isso pode acrescentar asas aos nossos esforços. O mercador correrá por regiões de frio e calor a fim de conseguir um pequeno prêmio. O soldado, por um rico soldo de guerra, suportará a bala e a espada. Ele suportará alegremente uma
primavera sangrenta, visando obter uma colheita dourada. Oh, então, quanto mais nós devemos dar nosso santo suor por este bendito prêmio da salvação! E tendo exposto alguns argumentos a fim de persuadi-los a executareste trabalho, agora proporei algumas diretrizes que lhes ajudarão a executá-los. E aqui lhes mostrarei quais são aquelas coisas que precisam ser removidas, pois elas poderiam atrasar nosso trabalho, e quais são as coisas que devem ser buscadas, pois as mesmas irão apressá-lo. Devemos remover aquelas coisas que retardarão o desenvolvimento de nossa salvação. Há seis obstáculos no cjiminho de nossa salvação que devem ser removidos.

1. Os alçapões do mundo. Enquanto os pés estiverem numa armadilha, o homem não pode correr. O mundo é uma armadilha. Enquanto nossos pés estiverem nele não poderemos "correr a carreira que nos está proposta. " (Heb. 12:1). Se um homem tivesse que escalar uma rocha íngreme com pesos amarrados em seus pés, estes atrasariam sua escalada. Tantos objetos que valorizamos muito, atrasarão nossa escalada dessa rocha íngreme que leva à salvação. Enquanto a mó dos negócios está girando, faz tanto barulho que mal podemos ouvir o ministro levantando sua voz como uma trombeta. O mundo sufoca nosso zelo e apetite pelas coisas celestiais. A terra apaga nosso ânimo, a música do mundo nos encanta e nos faz dormir, e por isso não podemos trabalhar. Nas minas de ouro há gases venenosos. Oh, quantas almas têm sido destruídas por esses gases que sobem da terra!

2. O segundo obstáculo no caminho da salvação é a tristeza e a indisposição. Quando o coração do homem está triste, ele não é capaz de desenvolver seu trabalho, fica como um instrumento desafinado. Quando sentimos temores e estamos abatidos, isso é refletido em nossas ações religiosas. Davi se esforçou para sair dessa melancolia espiritual: "Por que estás abatida, ó minha alma?" (Sal. 42:5). A alegria estimula. Os espartanos usavam a música em suas batalhas para estimular seus espíritos, a fim de lutarem com maior valentia. A alegria é como a música para a alma, ela estimula para a tarefa. Ela lubrifica as engrenagens das emoções. A alegria faz com que realizemos o serviço com prazer, e nunca somos levados tão velozmente na religião como quando estamos nas asas da alegria. A melancolia trava as rodas de nossa carruagem e então fica muito difícil dirigi-la.

3. O terceiro obstáculo para a salvação é a preguiça espiritual. Este é um grande impedimento ao nosso trabalho. Foi dito dos filhos de Israel que "desprezaram a terra aprazível". (Sal. 106:24). Qual seria a razão? Canaã era um paraíso de delícias, um tipo de céu. Sim, mas eles pensaram que esta lhes traria uma grande quantidade de problemas e exigiria muito esforço para ser alcançada, assim eles preferiram continuar sem ela. Desprezaram a terra aprazível. E acaso não existem milhões entre nós que refeririam ir dormindo para o inferno, mais do que esforçarem-se em ir para o céu? Eu ouvi falar sobre alguns espanhóis que viviam perto de um local onde existia grande quantidade de peixes, todavia eram tão preguiçosos que não se esforçavam em pescá-los. Eles os compravam de seus vizinhos! Existe umapreguiça tão pecaminosa sobre a maioria das pessoas, de modo que, embora Cristo esteja perto delas, embora a salvação lhes seja oferecida através do evangelho, ainda assim elas não a desenvolvem. "A preguiça faz cair em sono profundo". (Prov. 19:15). Adão perdeu sua costela enquanto dormia, e muitos são os homens que perdem suas almas durante o sono profundo.

4. O quarto obstáculo no caminho da salvação é a opinião de que a salvação é muito fácil - "Deus é misericordioso e se acontecer o pior, nós somente temos que nos arrepender". Deus é misericordioso, é verdade, no entanto Ele é justo. Ele não prejudica Sua justiça por mostrar misericórdia. Portanto observe aquela cláusula na proclamação: "...que ao culpado não tem por inocente. " (Ex. 34:7). Se um rei proclamasse que seriam perdoados somente aqueles que viessem à sua presença e se submetessem ao seu cetro, poderia ainda alguém que persistisse na rebelião reivindicar o benefício desse perdão? Oh, pecador,
você gostaria de receber misericórdia, no entanto sem depor as armas da injustiça? "Somente arrepender-se?" É este "somente" que nós não podemos alcançar, a não ser que Deus direcione nossa seta. Diga-me, pecador, é coisa fácil para um homem morto viver e andar? Você está espiritualmente morto e embrulhado em sua mortalha. (Ef. 2:2). É fácil a regeneração? Não há angústias no novo nascimento? É fácil negar-se a si mesmo? Você sabe o quanto a verdadeira religião deve custar, e o que ela pode custar? Ela deve custar a sua separação de suas concupiscências, e ela pode custar a sua própria vida! Preste atenção a esta obstrução. A salvação não é per saltum. Não é um passeio pela floresta. Milhares têm ido para o inferno por causa desse engano. Os óculos de aumento da presunção têm feito a porta estreita parecer mais larga do que realmente é.

5. O quinto obstáculo no caminho da salvação são os amigos ímpios. É perigoso dar ouvidos à sua voz. A serpente falou a Eva. A esposa de Jó o teria impedido de servir a Deus: "Ainda reténs a tua integridade?" (Jó 2:9). O quê! Ainda orar e prantear? Aqui o diabo lançou uma tentação para Jó através de sua esposa. Os amigos ímpios tentarão nos desviar da nossa meta. "Qual a necessidade de tanto esforço para ser salvo? Um menor empenho bastará!" Lemos a respeito dos irmãos de Cristo, quando eles O viram pregando com tanto zelo, que tentaram refreá-lO: "E quando os seus ouviram isto saíram para o prender... "(Mar. 3:21). Nossos parentes e amigos às vezes nos bloqueariam no nosso caminho para o céu, e julgando nosso zelo como loucura, nos envolveriam e impediriam no desenvolvimento da nossa salvação. Spira encontrou-se com tais amigos, buscando seu conselho se ele deveria rescindir sua opinião anterior a respeito da doutrina de Lutero ou se deveria persistir nela até morrer. Eles fizeram com que Spira se retratasse, e então abertamente, negando sua fé anterior, ele assim se tornou com o um homem vivendo no inferno.

6 . O sexto obstáculo no caminho da salvação são as más companhias.Elas nos retirarão de nosso trabalho. As águas doces perdem sua frescura quando se juntam a águas salgadas. Os cristãos perdem sua frescura e sabor quando estão entre os ímpios. As pombas de Cristo serão manchadas por "deitarem-se entre redis... ". (Sal. 68:13). A companhia pecaminosa é como a água na forja de um ferreiro a qual esfria o ferro, não importa quão quente ele esteja. Tais pessoas esfriam as boas afeições. Os ímpios têm "a chaga do... coração " (I Reis 8:38) e seu hálito é infeccioso. Eles nos desencorajarão no desenvolvimento da nossa salvação. Se um homem fosse um pretendente de uma mulher, e se empenhasse muito para conquistá-la, porém, se chegasse alguém com uma notícia ruim sobre ela, algum impedimento, ao ouvir isso ele desistiria do seu intento. Assim acontece com muitos homens que são pretendentes da religião. Eles de bom grado firmariam o compromisso, e se envolveriam completamente para começar a desenvolver sua salvação, mas então alguns de seus conhecidos viriam para dizer-lhes que sabem de algumas coisas ruins sobre a religião. "Em todo lugar falam mal desta seita ". (Atos 28:21). Nela encontrarão tantas restrições e mortificação que eles jamais voltarão a sentir a alegria de viver. Imediatamente após isso eles são desencorajados e então o processo é quebrado. Tomem cuidado com tais pessoas, elas são demônios vestidos de carne. Elas são, como alguém disse, como Herodes que, se ele pudesse, teria matado Cristo assim que Ele nasceu. Então, quando Cristo começa a ser formado no coração, num sentido espiritual, eles O matariam. E assim tenho lhes mostrado as barreiras que se encontram no caminho para a salvação, as quais precisam ser removidas. Agora, em segundo lugar, estabelecerei alguns indícios que ajudam na salvação. O primeiro está no texto: "temor e tremor. " Não se trata de temor de quem está duvidando, porém um temor de quem é zeloso. Este temor é um requisito no desenvolvimento da salvação. "Temamos pois que, porventura deixada a promessa de entrar no seu repouso, pareça que algum de vós fica para trás". (Heb. 4:1). O temor é um remédio contra a presunção. O temor é uma espada flamejante que se movimenta em todas as direções para impedir o pecador de entrar. O temor estimula; é um antídoto contra a preguiça. "Pela fé Noé divinamente avisado das coisas que ainda não se viam, temeu, e, para salvação de sua família, preparou a arca. " (Heb 11:7). O viajante temendo que a noite o alcance antes que chegue ao fim de sua jornada, ele esporeia seu cavalo para que caminhe mais rápido. O temor causa seriedade. Aquele que caminha em temor dá passou cautelosamente. O temor preserva da apostasia: "e porei o meu temor em seu coração, para que nunca se apartem de mim ". (Jer. 32:40). O temor de cair nos livra da queda. O temor é a insígnia e o adorno do cristão. Os santos da antigüidade foram homens tementes a Deus. (Mal. 3:17). Diz-se que o piedoso Anselmo gastava a maior parte do seu tempo pensando sobre o diado julgamento. "Bem-aventurado o homem que continuamente teme ". (Prov. 28:14). O temor é a defesa do cristão, a maneira de estar seguro é temer sempre. Esta é uma das melhores ferramentas para o cristão utilizar. Segundo, outro grande indício no desenvolvimento da salvação é o amor. O amor faz o trabalho se desenvolver com prazer. Sete anos de trabalho pareceram como nada para Jacó por causa do amor que ele sentia por Raquel. O amor facilita tudo. É como as asas para o pássaro, como as rodas para o carro, como as velas para o barco. Ele prossegue rápida e animadamente em suas tarefas. O amor nunca se cansa. Há uma excelente citação de Gregório: "Deixe o homem abraçar o amor do mundo e ele rapidamente se enriquecerá." Assim, se alguém mantiver o amor à religião em seu coração, rapidamente será rico na graça. O amor é uma graça ativa e vigorosa. Ele despreza o perigo, despreza as dificuldades. Como uma poderosa corrente ele leva tudo o que está à sua frente. Esta é a graça que toma o céu pela violência. Façam com que seus corações sejam aquecidos por esta graça e vocês estarão aptos a trabalhar. O terceiro indício para a salvação é trabalhar na força de Cristo. "Posso todas as coisas naquele que me fortalece ". (Fil. 3:13). Nuncn trabalhem sozinhos. A força de Sansão estava em seu cabelo, e a força do cristão está em Cristo. Quando vocês tiverem que realizar alguma tarefa, que resistir a alguma tentação, que subjugar alguma fraqueza, façam-no na força de Cristo. Alguns saem para combater o pecado mi força das resoluções e dos votos. Eles são rapidamente derrotados. Façam como Sansão. Ele primeiro clamou ao céu por ajuda, e então, abraçando os pilares demoliu a casa sobre os líderes dos Filisteu* Quando envolvemos Cristo no trabalho, abraçamos os pilares de uma ordenança, e assim pomos abaixo a casa sobre a cabeça de nossas concupiscências. Quarto, vão com calma, sejam humildes, não pensem que vocês merecerão qualquer coisa pelo seu trabalho. Satanás nos nliislitiri dotrabalho ou nos tornará orgulhosos dele. Deus precisa perdoar os nossos trabalhos antes de coroá-los. Se pudéssemos orar como os anjos, derramar rios de lágrimas, construir igrejas, erigir hospitais, r tivéssemos o conceito de que mereceríamos qualquer coisa por causa disso, seria como uma mosca morta num frasco de perfume. Macularia e ofuscaria a glória do trabalho. Nossas obras, como o bom vinho, tomam o gosto do barril ruim. Elas serão nada mais do que cintilantes pecados. Não deixemos o orgulho envenenar nossas coisas santas. Quando estamos trabalhando para o céu, devemos dizer como o bom Neemias: "Nisto Deus meu, lembra-te de mim, eperdoa-me segundo a abundância da tua benignidade. " (Nee. 13:22). Quinto, trabalhem sobre os seus joelhos. Sejam fervorosos em oração. Supliquem ao Espírito de Deus para ajudá-los no trabalho. Façam esta oração: "Levanta-te vento norte, e vem tu, vento sul; assopra no meu jardim..." (Cantares de Salomão, capítulo 4). Precisamos ter o Espírito soprando sobre nós, pois existem muitos ventos contrários soprando contra nós.Consideremos a rapidez com que nossas santas afeições estão sujeitas a murcharem. O jardim não precisa de mais vento para fazer brotar seus frutos do que nós precisamos do Espírito para fazer florescer nossas virtudes. Filipe juntou-se à carruagem do eunuco, o Espírito de Deus precisa juntar-se à nossa carruagem. Do modo como o marinheiro mantém a mão no leme, assim também ele mantém os olhos nas estrelas. Enquanto estamos trabalhando, precisamos olhar para o Espírito. Que valor tem a nossa preparação sem a operação do Espírito? De que vale todo o nosso remar sem o vento do céu? "O Espírito me levantou ". (Ez. 3:14). O Espírito de Deus precisa tanto infundir a graça quanto estimulá-la. Nós lemos da roda dentro da roda em Ez. 1:16. O Espírito de Deus é aquela roda interior que precisa mover a roda dos nossos esforços. Para concluir, orem a Deus para abençoá-los em seu trabalho. "...não é dos ligeiros a carreira, nem dos valentes a peleja... " (Ecl. 9:11). Nada prospera sem a bênção, e qual o modo de se obter isso, a não ser pela oração? É um velho ditado: "Os santos levam a chave do céu em seus cintos." A oração derruba as armas das mãos do inimigo e apanha a bênção das mãos de Deus. Finalmente, sexto, trabalhem com esperança. O apóstolo disse: "Aquele que lavra deve lavrar com esperança". (I Cor. 9:10). A esperança é a âncora da alma. (Heb. 6:19). Lancem esta âncora sobre a promessa e vocês jamais afundarão. Nada nos atrasa mais em nosso trabalho do que a incredulidade. "Claro", disse um cristão: "Posso trabalhar penosamente o dia todo e não conseguir nada." O quê? Não há bálsamo em Gileade? Não há um trono de misericórdia? Oh, derramem fé em cada tarefa, olhem para a livre graça, fixem seus olhos no sangue de Cristo. Vocês querem ser salvos? Façam seu trabalho com fé


Fonet:Os Puritanose a conversão - A Conversão de um Pecador por Nathaniel Vincen.Publicações Evangélicas Selecionadas Rua 24 de Maio, 116 – 3 Q andar - salas 16 e 17 São Paulo - SP - 01041-000